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MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO - Carollina Lauriano

Atualizado: Jul 10


Legenda: Bandeira Ocidental (Spindletop, Texas) , 2017, de John Gerrard. A "Bandeira Ocidental" mostra o local de 'Lucas Gusher' - a primeira grande descoberta de petróleo do mundo - em Spindletop, Texas, em 1901, agora o local estéril e exausto, que nada oferece. Situado na entrada do vale de Coachella, na cidade de Palm Springs, o trabalho é um lembrete não apenas da exploração e esgotamento voluntário de recursos que milhões de anos atrás cobriram esse antigo fundo do mar com abundância de vida, mas também energia usada para retornar a terra deserta ao seu estado atual de habitação artificial. O gás invisível responsável pelas mudanças climáticas é aqui tornado visível.


Recebemos a algum tempo o presente texto de nossa amiga curadora de arte Carollina Lauriano, que ocupa a segunda edição de nosso projeto Kit_Kitsch, e agora o disponibilizamos publicamente. Ele aponta importantes debates para o contexto atual de nosso país, mas não só por isso, também perverte a leitura formal e simples de uma obra de arte, a recolocando perante a realidade de sua concepção e produção. Segue o punho cerrado de Carollina, junto ao nosso, e da artista Lais Myrrha, com seu Enquanto a noite dura.


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I. Aníbal Quijano (1928 - 2018) foi um importante sociólogo e pensador humanista peruano que desenvolveu o conceito de “colonialidade do poder”. Seus estudos articulam problemáticas histórico-sociais sobre temáticas tidas como encerradas na América Latina. Revisionando problemáticas da colonialidade em oposição ao ideal moderno, que emergiu no continente como sinônimo de progresso e ruptura com os padrões herdados do Império, tais estudos decoloniais compartilham um conjunto sistemático que questiona o poder na modernidade, estabelecendo com eles uma “nova conquista da América Latina”, diretamente atrelada à era da globalização e a constituição de um novo modo de produção capitalista industrial, baseados no desenvolvimento urbano das cidades.


II. Diversos campos das humanidades foram, e ainda são, influenciados pelos ideais modernos ligados às representações simbólicas da subjetividade; do sujeito, do indivíduo. Na arquitetura, observa-se rapidamente que o período foi marcado pela rejeição aos estilos tradicionais, sendo tal característica manifesta, principalmente, pela busca da simplicidade da forma, assim como também pela função social e valorização da matéria-prima, aquela utilizada nas construções.

III. “A metrópole é definida como a própria organização de espaços e tempos, com base no desempenho e eficiência máxima, que direta ou indiretamente, racional ou irracionalmente, o capital persegue, e é o resultado de um processo de colonização que, embora diga que as narrativas históricas estejam concluídas, permanece presente”, escreve o arquiteto mexicano Gabriel Trujillo acerca do livro Um habitar mais forte que a metrópole, do Conselho Noturno.


Legenda: registro de Enquanto a noite dura, obra de Lais Myrrha para o Kit_kitsch #2. A partir desta, as seguintes são registros dos objetos que compões o box.


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Lais Myrrha baseia suas investigações artísticas em narrativas que estabelecem nossa experiência de mundo a partir do lugar que nele ocupamos. Observamos, através dos objetos escolhidos pela artista para compor suas obras, que as histórias nelas contadas emergem quase sempre da perspectiva “dos vencidos”.


Em Enquanto a noite dura, Lais retoma as relações da arquitetura e do espaço, reproduzindo dinâmicas de poder e dominação, assunto comumente abordado em seus projetos e pesquisas. Embora o trabalho tenha sido pensado em outras circunstâncias, impossível dissociar as questões que ele suscita da situação que estamos presenciando agora.



Se, por um lado estamos vivendo o ápice da crise das grandes metrópoles, da globalização e do capitalismo – que tem provado ser cada vez mais insustentável –, por outro, a experiência da disputa pela narrativa territorial nunca esteve tão acirrada. Enquanto convivemos, mundialmente, com o fechamento de fronteiras migratórias para o chamado sul global, que foge inclusive das próprias mazelas criadas pelo doutrinamento eurocêntrico, nacionalmente as disputas se pautam em factoides encobertos por uma cortina de fumaça, que disfarça as reais intenções de um governo que ignora, cada dia mais, os abismos sócio-econômicos de um país extremamente desigual e sem memória político-histórica.

Enquanto vivemos essa longa noite escura, é imprescindível ater-nos aos pequenos gestos. Parafraseando o texto que abre as instruções/etiqueta de Enquanto a noite dura, atribuo dois significados que podem ser muito importantes à obra de Lais. Primeiro, o futuro obscurantista que vem se desenhando sob o nosso céu, que muitas vezes nos impede de enxergá-lo, mas que, ao mesmo tempo, se propõe como força motriz para pensarmos a urgente reorganização dos grandes centros urbanos por meio da descolonização do pensamento. É preciso superar as falhas do passado reelaborando-o.



E, por fim, ao passo que a artista nos faz perceber tais durezas, também nos propõe ressignificar essa dor por meio da poesia. Em tempos de isolamento, em que a metrópole reconfigura um novo ordenamento social, é preciso criar encantamento nos afazeres cotidianos, em um gesto de deslocamento do olhar. Há de buscar a luz em meio a escuridão. Apenas assim imaginaremos um horizonte com novos dias.

Carollina Lauriano

maio de 2020



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Título original: Notas de observação: memórias do subdesenvolvimento


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Carollina Lauriano nasceu em 1983 em São Paulo, vive e trabalha na mesma cidade. É formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Tem extensão em Pesquisa e Análise de Tendências (em arte, design e moda) pela Central Saint Martins/University of the Arts London (ual) e atua como curadora independente. Em 2018 passa a integrar o time de curadoria e gestão do Ateliê397. Em suas pesquisas, interessa discutir a inserção, desafios e conquista de jovens mulheres artistas no mercado da arte.


Lais Myrrha vive e trabalha em São Paulo, nasceu em 1974 em Belo Horizonte.É mestre pela na Escola de Belas Artes, da UFMG (2007). Bacharel em artes visuais pela Escola Guignard, UEMG (2001). Recebeu vários prêmios, incluindo o I Concurso Itamaraty de Arte Contemporânea, Brasília (2011). Participou da 8ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre (2011). Em 2013, 18ª edição do Festival Internacional de Arte Contemporânea do Videobrasil e realizou o Projeto Gameleira 1971 no Pivô, São Paulo. Em 2016 participou da 32ª Bienal de Arte de São Paulo com a obra Dois pesos, duas medidas comissionada pela Fundação Bienal de São Paulo. Em 2019 participa da 13ª Bienal La Hababa.


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Kit_kitsch #3 : Lais Myrrha, em 120 unidades, é composto por dois livros, Um piano nas barricadas: por uma história da Autonomia, Itália 1970, de Marcello Tarì e Um habitar mais forte que a metrópole, de Conselho Noturno + a obra Enquanto a noite dura, da artista Lais Myrrha, realizada para o projeto da editora em 2020 + Certificado de Obra junto ao texto crítico Notas de observação: memórias do subdesenvolvimento da curadora de arte Carolina Lauriano. 


Enquanto a noite dura é uma obra de arte pensada e realizada pela artista Lais Myrrha, gerada na imbricada relação com os dois livros da editora que compõem o box. Enquanto em Um habitar mais forte que a metrópole, de Conselho Noturno, se propõe a desmetropolização da vida e do espaço em que se vive, a fim de que possamos habitar os ambientes sem tê-los como propriedade, no Um piano nas barricadas: por uma história da Autonomia, Itália 1970, de Marcello Tarì, se estende a realização histórica de um longo período em que se pode experimentar a subversão da metrópole com insurreições de formas de vida que, atualmente, poderíamos apenas imaginar. São com essas características presentes nos livros, entre a realização na história e a proposição da filosofia, que Lais ergue caminhos para construção poética de uma presença lúdica, e por isso criativa, no aqui e agora miserável de nossas vidas capitalizadas, com um simples guarda-chuva que pode nos produzir um céu estrelado mútuo, tornando desejos possíveis. O trabalho obtém o tamanho fechado de 64 X 6,5 cm e aberto de 93 X 96 cm, e é constituído por um guarda-chuva preto com um borrifador de vidro acoplado ao seu cabo por um fio encerado preto e uma etiqueta em nylon resinado preto instalada internamente ao objeto, que oferece as instruções poéticas para que a experiência tilitante e noturna do cosmos se realize. 





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