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O TRADUTOR VESTE FARDA - Camila Djurovic





Guerra cultural e a primeira edição de

A revolução dos bichos no Brasil



Em uma granja, animais se rebelam contra seus donos em busca de uma sociedade ideal, que logo se desdobra em uma tirania ainda mais opressiva que a dos humanos. Embora essa história seja familiar para muitos, só agora vem a público que a chegada do livro A revolução dos bichos ao Brasil guardou uma relação direta com o golpe de 1964.


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Nascido no Rio Grande do Sul em 1936, Heitor Aquino Ferreira foi um típico homem de bastidor. Sua trajetória na cena política teve início na década de 1960, quando ainda jovem tenente do Exército tornou-se assistente pessoal do general Golbery do Couto e Silva, líder da conspiração contra o governo João Goulart orquestrada a partir do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS).


Durante a ditadura, Ferreira acompanhou a montagem do Sistema Nacional de Informações (SNI), principal órgão de vigilância e repressão do regime. Com passagem para a reserva, trabalhou na Amazônia no megalômano Projeto Jari e também na Petrobrás. Entre os anos de 1974 e 1979 foi secretário particular de Ernesto Geisel e articulador político de seu governo.


Consciente de estar testemunhando a História, escreveu diários e acumulou uma relevante documentação sobre o período, que entregou posteriormente ao amigo e jornalista Elio Gaspari, dando subsídio à conhecida série de livros sobre a ditadura.


Legenda: Da esquerda para a direita, Golbery do Couto e Silva,

Ernesto Geisel e Heitor Aquino Ferreira. / Acervo CPDOC/FGV



Apreciador de videocassetes, charutos Davidoff, suspensórios e livros [1], Ferreira também transitou no mundo editorial e realizou diversos trabalhos como tradutor, se especializando em obras de cunho político e social.


Ainda no começo da carreira, o gosto pelos livros o levou a integrar um grupo de trabalho no IPÊS dedicado a editar, patrocinar e distribuir clandestinamente publicações anticomunistas, do qual também fizeram parte importantes figuras do mundo literário como Rachel de Queiroz, Augusto Frederico Schimidt e o então romancista iniciante José Rubem Fonseca.


Neste período realizou o seu trabalho mais importante como tradutor, mas que curiosamente também permaneceu nas sombras. A primeira edição brasileira do clássico A revolução dos bichos, publicada em 1964 pela editora Globo com patrocínio do IPÊS, omitiu o nome completo e a patente militar de seu tradutor. Nos créditos do livro, constou apenas uma menção genérica a "Heitor Ferreira", em uma tentativa de ocultar as intenções políticas e ideológicas por trás desta edição.


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Na tradução do então tenente Ferreira, a sátira de George Orwell teve seu caráter anticomunista reforçado e adaptado para a realidade brasileira. O carregado componente ideológico é perceptível já na adaptação do título original Animal farm - a fairy story (que em uma tradução literal se aproxima de "Fazenda dos animais - um conto de fadas") para "A revolução dos bichos", no qual optou-se pelo uso das palavras "bicho" (gíria utilizada por estudantes nos anos 1960), ao invés de "animal", e "revolução" (sentido ausente no original), de maneira a remeter o leitor diretamente à questão do comunismo [2]. Em diversas as passagens do texto, inclusive, a palavra "rebellion", que em português se aproxima do termo "rebelião", é traduzida como "revolução". O título também desloca a ênfase de Orwell sobre o resultado da história - a fazenda passa a pertencer aos animais - para o próprio processo revoltoso.


Ferreira optou ainda por não incluir na tradução brasileira o subtítulo original da obra ("a fairy story") que a enquadrava dentro do gênero literário da fábula. Possivelmente tal escolha se deva à vontade de direcionar o livro a um público adulto, principal alvo da propaganda ideológica do IPÊS. A intenção de utilizar o livro como arma ideológica fica patente em uma correspondência do tenente, na qual descreveu a publicação de Animal Farm como fruto do esforço do grupo editorial do instituto de imprimir e encaminhar para os "editores amigos" várias obras de "propaganda democrática anticomunista" [3].


Além da tradução, os elementos não textuais apontam que a edição patrocinada e encomendada e pelo IPÊS à editora Globo teve como objetivo intensificar a crítica de Orwell à Revolução Russa e, mais especificamente, ao stalinismo. A ilustração da capa da segunda edição, assinada por Vitório Gheno, tem como elemento principal um porco desenhado com contornos grossos e irregulares, que aponta adiante como se desse ordens a três cães que aparecem em segundo plano. O desenho corresponde ao enredo da história, em que cães raivosos assumem a função de executar as decisões do autoritário porco Napoleão, o autodeclarado chefe dos animais da granja, que na alegoria do autor corresponde à figura de Stalin. Os olhos vermelhos e furiosos do porco em primeiro plano conferem-lhe uma feição demoníaca que remete à imagem do “mal”, à qual o comunismo foi historicamente identificado.


Legenda: Capa de "A revolução dos bichos" (Globo, 2ª ed., 1971)


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Além de realizar a tradução da obra, Ferreira foi o responsável por conduzir a negociação para a publicação do livro com o diretor da editora Globo, de Porto Alegre, com quem possuía laços de amizade. À editora foi oferecido um acordo de colaboração que incluía a compra de um determinado número de exemplares pelo IPÊS caso o livro encalhasse nas livrarias.


Afora a garantia de venda, a Globo também pôde reduzir os custos da edição se beneficiando da parceria estabelecida entre o instituto brasileiro e a United States Information Agency (USIA). A agência diplomática do governo dos EUA possuía um projeto para estimular a produção e circulação de publicações nos países do chamado "terceiro mundo" que oferecia às editoras locais uma lista de textos originais em língua inglesa para os quais cedia gratuitamente os direitos autorais e a tradução.


Mas esse auxílio certamente não era desinteressado. A bibliografia subsidiada pela USIA, bem como suas políticas culturais em geral, serviam aos propósitos da política externa e da disputa cultural traçada pelo governo estadunidense no âmbito da Guerra Fria. Entre 1962 e 1964 pelo menos 20 livros listados e subsidiados pela agência estadunidense foram distribuídos pelo IPÊS, sendo todos eles de viés anticomunista.


Tanto a USIA quanto o IPÊS tinham por praxe omitir seus nomes dos créditos das publicações, que eram lançadas como se fossem projetos exclusivamente idealizados e realizados pelas editoras. Essa estratégia de ação clandestina dificultou por muito tempo a identificação da verdadeira rede de financiamento por trás deste conjunto de publicações.


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Escrito durante a Segunda Guerra Mundial e publicado em 1945, Animal farm causou polêmica à época por sua crítica mordaz ao regime de Stalin, então um importante aliado das potências ocidentais no combate ao nazifascismo. A perspectiva crítica de Orwell para com os rumos da Revolução de 1917 havia nascido da experiência como combatente na Guerra Civil Espanhola, quando testemunhou a perseguição dos soviéticos aos republicanos que não se alinhavam à ortodoxia marxista. A partir de então passou a definir-se como um socialista democrático, embora sua trajetória política tenha sido provavelmente mais contraditória. Documentos que vieram a público nos anos 1990 indicam que o escritor teria delatado intelectuais simpatizantes do comunismo ao governo britânico [4].


Por sua crítica ampla ao totalitarismo, a obra de Orwell foi alvo de disputa no período da Guerra Fria, sendo capturada tanto pelo imaginário da esquerda quanto da direita. No Brasil, a trajetória da primeira edição de Animal farm esteve inserida num contexto de intensa polarização política e tornou-se exemplo da estratégia de apropriação e descontextualição das críticas ao governo soviético vindas da esquerda "não alinhada" para fins de propaganda ideológica anticomunista.


Legenda: Primeira edição britânica do livro



Por quase 60 anos, a tradução realizada pelo militar Heitor Aquino Ferreira foi a única versão da obra existente no Brasil e passou pelas mãos de milhões de jovens leitores através de sucessivas reedições. Em 2007, a Biblioteca do Exército (BIBLIEx) publicou a sua própria, reforçando o apreço dos militares brasileiros pela literatura orwelliana. Por outro lado, recentemente algumas editoras vêm preparando traduções inéditas e debatendo os significados adquiridos pelo livro desde o seu lançamento.


Em janeiro do próximo ano, quando a obra de Orwell entrará em domínio público, A revolução dos bichos sairá com novas traduções por diversas editoras, como a Globo Livros, a Novo Século e a LP&M [5]. Agora em 2020, a Companhia das Letras lança uma tradução de Paulo Henriques Britto com um título bem mais próximo do original: A fazenda dos animais. A opção parece alinhada aos nossos próprios tempos e soa quase como uma reparação histórica. Mas igualmente relevante foi a decisão da editora de manter no catálogo, ao lado da edição especial, a antiga tradução de Ferreira com o título consagrado. Sendo o livro um objeto repleto de sentidos - que vão para muito além das intenções do autor - propiciar novas possibilidades de leitura sem deixar de debater criticamente o passado é sempre um caminho mais interessante.


Camila Djurovic



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Notas [1] A lenta queda de Heitor. Isto É, São Paulo, 12 out. 1983. Arquivo Ana Lagôa - UFSCar. [2] CARVALHO, C. H. A Revolução dos Bichos de George Orwell: tradução e manipulação durante a ditadura militar no Brasil. 2002. Monografia (Bacharelado em Letras) - Instituto de Ciências Humanas e Letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2002, p. 83. [3] FERREIRA, H.A. Carta a Sônia Seganfredo, 25 out. 1962. Fundo IPES - Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. [4] OPPENHEIMER, Walter. George Orwell delatou 38 intelectuais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 jun. 2003. [5] GABRIEL, Ruan de Sousa. 'A revolução dos bichos' muda título em novas traduções, se reaproximando do original. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 de out. 2020.


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Camila Alvarez Djurovic é historiadora e mestranda em História Econômica na FFLCH/USP, desenvolvendo pesquisa sobre as publicações da direita no pré-golpe de 1964. Também trabalha como pesquisadora do Memorial da Resistência de São Paulo.


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Para ler com o corpo

Nesta série de textos publicados no blog-revista da editora, se prescreve aquelas críticas reflexivas que necessitam primeiro da experiência de um corpo em movimento para que se possa assim ler a contingência de revolta das ruas. Como no lema da GLAC, "Para ler com o corpo" não é apenas uma frase de efeito, mas um modo de ver e tornar o mundo um laboratório político do cotidiano.

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