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CURA - Gabriela Acerbi Pereira


Legenda: Ana Maria de Paula, foto de Brisa Carvalho.



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"Com três anos de nascido, nada sabia falar. Minha mãe senhora pobre não sabia o que fazer. Me levou pra mata grande aonde os caboclos rezavam. Falavam de coisas tão lindas, rezavam com sabedoria. E a água da moringa que deram pra eu beber. Eu sai de lá falando, minha mãe se emocionou. E lá fez um juramento que jamais ei de esquecer: de louvar, saudar e dizer, a ti caboclo serei fiel até morrer, de louvar, saudar e dizer, a ti caboclo, serei fiel até morrer. De louvar, saudar e dizer, a ti caboclo, serei fiel até morrer. Ei levanta povo, vamos a Belém, vamos louvar caboclo que nasceu pra nosso bem. Levanta povo, vamos a Belém, vamos louvar caboclo que nasceu pro nosso bem".

Okê caboclo



Quando a pandemia começou no Brasil, a falta de ar acometeu uma de nossas mestras. Dado a respiração apertada, a presença da tosse e a febre subindo, nós caminhamos até o posto de saúde enquanto os jornais noticiavam o vírus que naquele momento ainda era pouco conhecido. Durante os primeiros dias dessa estranha experiência que estamos vivendo, mas que ali ainda parecia distante e impossível, a preta velha da nossa mestra veio a terra para dizer que tudo ficaria bem e que aquele corpo que a recebia não iria embora. Aliviadas, escutamos a vovó passar algumas recomendações, tomamos nota e, como dito, a nossa mestra não partiu.


Depois da vovó, foi o caboclo Pedra Branca quem passou a chegar com mais frequência. A verdade é que desde o ano passado ele vinha anunciando que esse ano regeria as coisas por aqui e que isso seria extremamente necessário. De acordo com as suas palavras já no final de dezembro, todos os que chegassem à porta de nossa Mãe deveriam procurá-lo antes de qualquer coisa. Não sei se todos os que leem este texto tem o entendimento de que os caboclos e caboclas, existências que nos visitam de outros planos, além de donos da terra, são entidades de cura muito poderosas. Como vetores de forças nativas, pulverizadas entre a memória das aldeias, dos sertões, das roças e também das embarcações, eles atuam enquanto linhas de trabalho. Espiritualmente, são eles que gerem a saúde daqueles que os procuram e são eles também que carregam a força das matas. É no encanto das plantas, de cada erva manuseada, que a sua potência de saúde se estabelece.


Meses depois, é bem verdade que Seu Pedra Branca andava cheio de razão, mas naquele momento nós não estávamos preparadas para escutá-lo. Eis então que dois mil e vinte chegou arrastado pelos tormentos de uma doença sufocante e os nossos corpos, coletivamente e individualmente passaram a sentir necessidade de uma sustentação frente à imensa sensação de desamparo e impossibilidade de futuro.

Seu Pedra Branca tem mais de setecentos anos e nasceu na região que hoje conhecemos por Cuiabá. Ele não tem o costume de dar essas informações tão detalhadas, mas principalmente porque poucas pessoas têm o habito e o interesse de perguntar quando estão em sua presença. Aqui na nossa terra, que foi a sua primeira habitação, ele morreu jovem. Tempos e espaços passados, até hoje Seu Pedra Branca mantem o mesmo cabelo bonito e brilhante. Quando se manifesta em energia, é sisudo e às vezes ríspido, principalmente pela consistência das mensagens que traz, mas é também sempre muito afetuoso e cuidadoso. Sábio, ele caminha com os braços pra trás e os punhos cerrados e quanto dança o seu passo é miúdo e muito charmoso, a cabeça normalmente direciona-se ao chão. Seu Pedra Branca dança e caminha com a autoridade de dono das matas e com uma segurança que eu nem sei explicar, mas que vem do discernimento de quem sabe a que veio. Enquanto energia manifestada, ele está sempre deixando a sua terra (que não podemos ver mas sentir) para se movimentar pela nossa. Ele circula em fluxos e acredito que por isso, nos momentos de angústia, dor ou sofrimento, é possível clamar e receber a sua presença mesmo se sozinhos. Talvez isso aconteça na ausência de um fundamento, mas com certeza na força da necessidade e da intuição. E então a sua chegada planifica nossas existências e por uns minutos ou horas pisamos sobre o mesmo chão.


Como o caboclo Pedra Branca gosta de enfatizar, a Pandemia é um problema dos homens. Se eu pudesse traduzir as suas palavras, fato é que o sagrado nada tem haver com isso que criamos e essa crise é uma demanda do nosso mundo. Consequência dos comedores de terra[1] e seus arranjos, experimentamos agora o desdobramento de um modo de vida branco que nunca soube muito bem sonhar ou escutar os seus escassos sonhos. E agora ele padece profundamente por uma imagem de pensamento única e problemas de imaginação.


Sendo a pandemia um problema nosso, as questões que circulam são sobre como vamos nos inscrever nela e como vamos reaprender a escutar quem pisou aqui primeiro.


Legenda: Canto de Raphael de Paula Ferreira / Produção Gabriela Acerbi Pereira / Cinegrafia e montagem: Brisa Carvalho / Realização: Coletivo Estamos aqui e Comunidade Afroancestral do Sul de Minas Gerais.


Sorte nossa que nem tudo que pisa com a gente reflete o delírio e o sufocamento do projeto colonial que se arrasta. E desde que somos uma terra, há muita energia que circula para nos curar. Se há modos de governo que nos adoecem, há também um sacerdócio horizontal e ancestral que nunca parou de operar. Senhoras e senhores, romeiros de roça, mães e pais de santos, xamãs, pajés, benzedeiras, erveiros, raizeiros, congadeiros, moçambiques, vissungos - e também as avós com os seus quintais e as suas receitas de família, com seus chás de boldo. Todos eles atuam e facilitam o trânsito e a ação das forças que já morreram, mas que ainda fazem fazer. Nganga, quimbanda, makotas navegam aos contextos brasileiros e atualizam filosofias espirituais, como as centro-africanas e os seus cruzamentos indígenas. E nas reminiscências antepassadas, nos seus novos encontros e na continuidade que guia, os agentes da medicina seguem sendo agentes de cuidado. E assim eles remontam o fato de que nossos especialistas religiosos, na força das águas, dos ventos, do fogo e das matas, nunca caminharam apartados de uma ciência de cura. Esse é um entendimento que o caboclo veio nos trazer.


Enquanto vivemos o nosso problema pandêmico, as palavras de Pedra Branca são certeiras como sua flecha e articulam cosmopolíticas de muitos encontros. Com elas, aprendemos que para curar a doença precisamos refazer o nosso entendimento de saúde. E para garantir novas condições de equilíbrio, o nosso bem-estar deverá ser comunitário, familiar e em vizinhança: entre mortos e vivos, entre terra e mulheres, entre os seres originários e o agora.


Entre tantas visitas do Caboclo Pedra Branca, assim como nas bênçãos contidas no rosário da Vóvó - em termos de cura e cuidado - gostaríamos de lembrar que é nessa travessia que nos reinscrevemos. Sobrepostos entre entes, seres e coisas, a perpetuação da vida agora caminhará saudável se permanecer aliançada com quem sempre cuidou. E também se refizer seu entendimento do que é um corpo e de como ele é mantido. Por linhas de intersecção e novas inflexões, vamos apreendendo com quem sempre nos povoou e em tempos de escassez, sufocamento e indeterminações de futuro, as condições do existir nos levam a repensar o que até agora estávamos entendendo como bem-estar.


As determinações das políticas da vida, assim como a nossa sobrevivência, dependem profundamente de um passado que retorna para curar.


Gabriela Acerbi Pereira


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Esse pequeno texto foi escrito a partir da presença e das palavras de Seu Pedra Branca que guia Ana Maria de Paula, mãe de santo na cidade de Poços de Caldas. A força do texto remonta como as coisas são feitas aqui no sul de Minas e não tem a pretensão de reduzir as povoações de todo Brasil à sua singularidade. Esse texto é também reflexo da ação do coletivo Estamos Aqui. Estamos Aqui é um coletivo criativo que opera como uma rede de articulação e alianças voltadas às culturas ditas “populares” - negras, periféricas, tradicionais, rurais, caboclas, de matrizes afro-indígenas do sul de Minas Gerais. Estamos aterrados na cidade de Poços de Caldas, mas incorporamos ao trabalho nossa vizinhança parceira. Nosso coletivo se sustenta para preservação, manutenção e estruturação de ações voltadas aos fazedores de cultura que através dos seus modos de vida garantem a perpetuação dos universos culturais, seus conhecimentos e técnicas. Estamos falando de congadeiros e congadeiras, Associações de Ternos de Congo, grupos Caiapós, Folia de Reis, Catira, Romeiros, Terreiros e Comunidades religiosas de matrizes africanas, Erveiros, Benzedeiras, Índios-raizeiros e também grupos periféricos associados às culturas negras e urbanas como o Hip-hop, Samba e o Pagode.



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Gabriela Acerbi Pereira é antropóloga. Nasceu, cresceu, pesquisa e vive o sagrado do Sul de Minas. gabiacerbi@gmail.com.


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Notas da Edição:

[1] Como diz o Xamã Yanomani Davi Kopenawa

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A palavra é vírus

Simultânea e paralelamente à pandemia do novo coronavírus, muitas palavras também ganham a insistência das repetições. A cada segunda-feira, um novo ensaio pensando com as palavras. Quer saber mais sobre a série? clica aqui

Editores: Wander Wilson e André Arias. E-mails de contato: wanderwi@gmail.com / andre.fogli@gmail.com



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