CONTEÚDO 

CRISE, GOVERNAMENTALIDADE E MEDO DA PANDEMIA - Caio Maximino

O agenciamento do medo enquanto estratégia biopolítica é um poderoso cerceador de relações e exercícios de imaginação de outros modos de vida. A solidão que nos acometeu ao longo do processo de pandemia é antes um projeto - não distinto do desequilíbrio que nos leva a ela. No texto, o autor propõe isso que irá chamar de um "devir-lebiste", como forma de enfrentamento e reconstrução de comunidades possíveis para este tempo estranho que atravessamos.


Nara Coló Rosetto, Protocolo de paramentação, 2020. Vestido branco de cetim - herança familiar- e luvas de látex. Registros de Clara Zamith


Se há algo que define, de um ponto de vista das subjetividades, o estado de pandemia atual, esse algo é o medo. Todos estamos paralisados pelo medo de morrer, de contaminar o outro, de perder entes queridos. De perder o emprego. De não conseguir pagar as contas, de não conseguir o suprimento de emergência.


O medo é um potente motivador de comportamentos antissociais. Assim como no caso da maior parte das espécies de animais não-humanos, nossas respostas típicas de medo são ativas quando possível (fuga e esquiva), e passivas (congelamento) quando a fuga é impossível ou quando a ameaça não é imediata. O medo é um afeto triste, nos impede de agir, nos joga contra o que não queremos, nos afasta daquilo que acreditávamos fazer parte de nossa potência. O medo é, portanto, um afeto biopolítico fundamental para que o poder mantenha a coesão da vida social. É uma máquina de criar corpos dóceis.


Os medos e ansiedades produzidas pela pandemia atual não se ligam somente ao medo da doença em si, mas também aos efeitos do isolamento social em que nos encontramos. A solidão está associada à depressão e ao suicídio, ao aumento nas taxas de alcoolismo, à baixa qualidade de sono, entre outros, todos eles importantes fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais. A solidão produz ainda diversos efeitos psicofisiológicos, cardiovasculares, imunes, e endócrinos, incluindo níveis mais altos de atividade autonômica (p. ex., pressão sanguínea em repouso mais alta), piores indicadores de imunovigilância (p. ex., níveis mais baixos de lise de células natural killer), e níveis mais altos de hormônios do eixo neurovegetativo (p. ex., níveis mais altos de catecolaminas urinárias). Como todos os afetos, a solidão é sentida com e pelo corpo.


Como espécie profundamente social, sofremos uma espécie de acedia moderna. A acedia, um dos oito pecados mortais instituídos por Evrágio Pôntico [1], é uma espécie de angústia depressiva, descrita como um estado de torpor e ausência de cuidado interior e exterior, estranhamento em relação a si mesmo e ao mundo que o rodeia. Importante para o que nos interessa, a acedia foi notada na Antiguidade tardia e Idade Média em relação aos monges e outros ascetas que mantinham uma vida de isolamento em monastérios no deserto. O filólogo francês Roland Barthes, no curso “Como viver junto – Simulações romanescas de alguns espaços cotidianos”, nos dá a pista: “Acídia (moderna): quando já não se pode investir nos outros, no Viver-com-alguns- outros, sem poder, entretanto, investir na solidão → O dejeto de tudo, sem nem ao menos um lugar para esse dejeto: o dejeto sem lata de lixo”.

Nara Coló Rosetto, Protocolo de paramentação, 2020. Vestido branco de cetim - herança familiar- e luvas de látex. Registros de Clara Zamith


A produção da solidão, do medo, e da ansiedade são efeitos biopolíticos da pandemia tanto quanto a mortalidade e as taxas de infecção. Têm sido quase um truísmo que a crise da COVID-19 escancara relações biopolíticas e necropolíticas.

Trato a biopolítica como uma governamentalidade que se segue ao poder disciplinar: é precisamente o conjunto de mecanismos e procedimentos técnicos que tem como objetivo fundamental ampliar o controle, mantendo uma relação de dominação da população: “Na comunidade pandêmica, a vida social, a vida laboral, a vida escolar e a vida política, todas se contraem na vida doméstica antes de explodirem na vida em rede” (Nil Mata Reyes). É elemento fundamental do discurso sobre a pandemia que instaurou a solidão, o medo e a ansiedade, e evoca o discurso da guerra: “Isso é, também, um atentado contra a vida. Não contra a vida em geral, a Ideia de Vida, mas contra a vida real de cada um, a vida livre […] Por meio do discurso da guerra se empreende uma operação de guerra de fato, e esta atinge não ao vírus, mas os cidadãos […] Desta maneira, os controles sanitário-securitários são justificados como medidas duras, mas necessárias, medidas de exceção para uma situação sem precedentes, novamente, uma guerra” (Acácio Augusto, 2020). Aos dispositivos brutais de controle que vemos ser estabelecidos em países como a China, por exemplo, soma-se, no Brasil, o que ingenuamente se atribui a uma “incompetência” do governo federal, que faz declarações estapafúrdias e se recusa a colaborar com as agências de saúde (do próprio governo!) para realizar rapidamente as ações de saúde. Digo “ingenuamente”, porque me parece que esse também é um projeto.


O que controla a posição bolsonarista em relação à COVID-19 é, por um lado, as demandas da economia, da manutenção do lucro, do patronato; por outro, um profundo desdém pela vida dos indivíduos, especialmente aquelas e aqueles que pertencem às classes perigosas e às “minorias”. Não é à toa que, se a COVID-19 infectou primeiro os mais ricos (sendo “importada” para o Brasil por jet-setters e pessoas em turismo na Europa), quem está morrendo (e quem morrerá em massa com o colapso vindouro do sistema de saúde) são os mais pobres. São eles que, em nome da economia e do Mercado, se arriscam diariamente ao contágio pela necessidade construída pela gig economy. Ao priorizar a economia e tripudiar da morte das minorias, o bolsonarismo coloca na boca dos intelectuais o que já parece um novo clichê: a política de saúde do governo federal é uma necropolítica, termo que Achille Mbembe usou para descrever o uso do poder social e político para ditar como algumas pessoas podem viver e como algumas devem morrer.


Soma-se a essa dimensão necropolítica outro domínio do medo, a informação. Uma importante recomendação da Organização Mundial da Saúde para proteger a saúde mental nos tempos de pandemia é a de se diminuir a quantidade de informações que consumimos sobre a COVID-19 e seus efeitos [2]. O que parece uma “confusão” de informações contraditórias (os canais de TV e as campanhas do Ministério da Saúde afirmam uma coisa, as redes sociais – inclusive as redes de “fake news” – afirmam outra) é projeto: “a confusão midiática é uma das estratégias mais eficientes do bioterrorismo, política de estado que orbita o vírus. As notícias ruins chegam na velocidade do espirro por todos os canais: contaminam tudo. o pânico tem transmissão mais rápida que o vírus, repara… no fundo no fundo, o vírus nos lembra que a morte há de chegar, sempre, y isso causa terror ao desejo colonial de imortalidade” (Tatiana Nascimento, 2020).


O que se contrapõe, como potência, ao pânico, à sociedade do risco, à pandemia midiática, aos sistemas de controle sanitário-securitários, à “comunidade pandêmica”? A resposta parece vir precisamente de uma comunidade outra: “Para além da morte, da depressão e do desespero, que tão intensamente atravessam o coração da comunidade pandêmica, as pessoas clamam umas às outras por aquilo que não se encontra nas suas redes em casa, por uma vida que não se limita a viver, mas que vale a pena viver” (Nil Mata Reyes).



Nara Coló Rosetto, Protocolo de paramentação, 2020. Vestido branco de cetim - herança familiar- e luvas de látex. Registros de Clara Zamith


Apoio mútuo

Ironicamente, essa comunidade outra vêm sendo proposta, dentro dos movimentos anticapitalistas, pelo menos desde o século XIX, sob o nome “apoio mútuo”. O geógrafo anarquista Pyotr Kropotkin publicou, em 1902, seu livro “Apoio mútuo: um fator de evolução”, em que descreve observações feitas em diversas “sociedades contra o Estado” nas quais a vida social harmoniosa, a identificação da vida individual com a da própria comunidade e o conjunto de moralidade desenvolvido nessas sociedades (amizade, gratidão, compaixão, lealdade, generosidade, e por aí vai). Se existe tão grande variedade de formas-de-vida que se baseiam no mutualismo, no apoio mútuo, na solidariedade, qual seria a origem do individualismo irrefreável senão a organização social e econômica moderna?


Como anarquista, Kropotkin está interessado, claro, em entender como se pode construir as bases teórico-práticas para o apoio mútuo entre os de baixo. Por apoio mútuo, entende-se o intercâmbio voluntário e recíproco de recursos e ações para o benefício mútuo. O apoio mútuo é mais facilmente produzido no nível comunitário e representa uma síntese entre o individualismo autônomo e o coletivismo corporativista. Essa síntese só é possível quando os indivíduos adquirem um insight sobre a vida do outro, uma abertura radical a todas as situações possíveis e uma alta consciência do si-mesmo.


Inúmeras ações de apoio mútuo têm surgido durante a pandemia da COVID-19. Nos jornais, nos é chamada a atenção para um potente “movimento das varandas”, em que indivíduos atomizados buscam reconectar-se com suas comunidades. Esses movimentos, claro, têm visibilidade porque representam o apoio mútuo dos “assegurados”, daqueles que podem se isolar em suas casas e home offices. Mas há também um potente movimento de apoio mútuo vindo de outras esferas. Se em grande parte a situação atual se deve à negligência dos governos e à incapacidade do capitalismo de atender nossas necessidades mais básicas, é também importante perceber que somos nós que melhor podemos dizer quais são essas urgências e qual é a melhor forma de supri-las, nos guiando por nossas particularidades individuais e das comunidades nas quais convivemos e construímos. O apoio mútuo não é somente uma saída para resolver uma emergência de saúde, mas também para, acima de tudo, fazer uma emergência de comunidade, fazer emergir novamente a comunidade.

Para isso, é preciso superar o medo.


Devir-lebiste

Uma das observações mais interessantes feita por Kropotkin é a de que não somente as formas-de-vida organizadas fora do “risco duplo” do Estado e do capitalismo baseiam-se extensamente no apoio mútuo, mas também o apoio mútuo estende-se para uma gama de espécies de animais não-humanos:


"As espécies animais em que a luta entre os indivíduos foi levada aos limites mais restringidos, e nas que a prática da ajuda mútua atingiu o máximo desenvolvimento, invariavelmente são as espécies mais numerosas, as mais florecientes e mais aptas para o máximo progresso. A proteção mútua, conseguida em tais casos e devido a isto a possibilidade de atingir a velhice e acumular experiência, o alto desenvolvimento intelectual e o máximo crescimento dos hábitos sociais, asseguram a conservação da espécie e também sua difusão sobre uma superfície mais ampla, e a máxima evolução progressiva. Pelo contrário, as espécies insaciáveis, na enorme maioria dos casos, estão condenadas à degeneração (Pyotr Kropotkin, Apoio mútuo: Um fator de evolução)."


Serão necessários cem anos para que esse insight seja reincorporado à biologia evolutiva. O aparente paradoxo da evolução do altruísmo e do apoio mútuo foi resolvido teoricamente e depois experimentalmente, com a demonstração de que muitas espécies de animais são capazes de cooperar.


Uma dessas espécies é o lebiste (Poecilia reticulata), um pequeno peixe teleósteo neotropical encontrado na América Central e Amazônia. Essa espécie apresenta um curioso comportamento de inspeção de predadores: quando confrontado com um predador em potencial, um dos indivíduos deixa o cardume e se aproxima do predador para conseguir mais informações sobre o risco real. Esse curioso comportamento é um paradoxo, do ponto de vista evolutivo, já que o animal que inspeciona aumenta o risco de morrer para beneficiar os outros animais do cardume. Parece um claro exemplo de apoio mútuo!


Em meu laboratório na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, demonstramos que o animal que inspeciona não é simplesmente o mais “corajoso”: de fato, quando confrontado com um predador, o lebiste apresenta claros sinais comportamentais de medo (PIMENTEL et al., 2019). Entretanto, o lebiste “supera” seu medo e se aproxima do predador, produzindo vantagens para o cardume. O lebiste supera seu medo em favor do outro.


Precisamos de um “devir-lebiste”. Como lógica da mudança e da diferença, os devires se definem em campos de desdobramento das diferenças, de multiplicidades de forças que constituem os corpos em contato em uma “zona de vizinhança”. O devir-lebiste é a superação do medo e do isolamento da pandemia em direção a uma nova posição, a dois, de apoio mútuo:


"É preciso, primeiro, combater o medo da morte. Para tanto, dois requisitos essenciais, a recusa da passividade e o conhecimento do “inimigo”. Quanto mais activos, mais aptos, mais fortes para afastar o medo. Se bem que o medo acorde a lucidez, e neste sentido possa ser benéfico, sabemos que ele encolhe o espaço, suspende o tempo, paralisa o corpo, limitando o universo a uma bolha minúscula que nos aprisiona e nos confunde. Comunicar com os outros e com a comunidade é furar a bolha, alargar os limites do espaço e do tempo, tomar consciência de que o nosso mundo se estende muito para além dos quartos a que estamos confinados (José Gil, O medo)."


É esse “devir-lebiste” que nos retirará do medo e da ansiedade cotidianas e nos impedirá de produzir uma nova sociedade securitária, usando os dispositivos que já se estabeleceram. Criar novas conexões a partir do apoio mútuo pode ser, portanto, uma saída para a saúde mental na pandemia.

Nara Coló Rosetto, da série Partículas Afixas. Pesquisa de palavras que possuem o sufixo dor em sua composição.


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Notas da edição

[1] Evrágio Pôntico - Escritor, asceta e monge cristão. A doutrina dos oito males do corpo, listadas por Evrágio como as principais doenças espirituais que acometiam os monges em clausura, será adaptada e difundida no catolicismo Ocidental pelo papa Gregório Magno como os 7 pecados capitais.

[2] (https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/mental-health-considerations.pdf)

[3] Para mais informações: https://apoiomutuo.com.br/)


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Caio Maximino é professor e pesquisador no campo das Neurociências na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Pesquisa neurociência evolutiva e neurociência crítica, usando a combinação de biologia evolutiva, neurociência comportamental, sociologia, farmacologia comportamental e epistemologia para tentar entender alguns processos psicólogicos e comportamentais que são relevantes para os transtornos mentais. Também pesquisa a epistemologia do Ensino de Ciências, com foco principal na possível interação entre neurociências e educação.


Nara Coló Rosetto é arquiteta e artista visual. Trabalha em diferentes frentes como documentações diárias, mapeamentos e cartografias. Em sua atual pesquisa, cria coleções sobre a vulnerabilidade humana em peças que retratam situações cotidianas e revelam a fragilidade de invisibilidade do tema. Possui produção em diversos suportes, como instalações urbanas e cênicas, ilustrações em livros e jornais, peças têxteis e além da realização de oficinas de criatividade em diversas instituições culturais.


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Para ler com o corpo

Nesta série de textos publicados no blog-revista da editora, se prescreve aquelas críticas reflexivas que necessitam primeiro da experiência de um corpo em movimento para que se possa assim ler a contingência de revolta das ruas. Como no lema da GLAC, "Para ler com o corpo" não é apenas uma frase de efeito, mas um modo de ver e tornar o mundo um laboratório político do cotidiano.

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