Sobre a miséria do meio estudantil: considerada nos seus aspectos econômicos, políticos, sexuais e, especialmente, intelectuais; e alguns meios para a prevenir
— Estudantes de Estrasburgo & Internacional Situacionista, 1966
(*Trecho inicial do texto publicado na edição)
Tornar a vergonha ainda mais vergonhosa assumindo-a publicamente
Podemos afirmar, sem grande risco de erro, que o estudante na França é, depois do policial e do padre, o ser mais universalmente desprezado. Se as razões de tal desprezo são, com frequência, falsas razões resultantes da ideologia dominante, as razões pelas quais, do ponto de vista da crítica revolucionária, o estudante é efetivamente desprezível e desprezado são recalcadas e dissimuladas. Entretanto, os defensores da falsa contestação sabem reconhecê-las e nelas se reconhecer. Eles invertem esse desprezo verdadeiro transformando-o em uma admiração condescendente. É deste modo que a impotente inteligência de esquerda — de Les Temps Modernes ao L’Express — se extasia perante a pretensa “ascensão dos estudantes”, e que as organizações burocráticas efetivamente em declínio — do partido dito comunista à UNEF — disputam entre si, com cobiça, seu apoio “moral e material”.
Mostraremos mais adiante as razões de tal interesse pelos estudantes, como essas organizações positivamente participam da realidade dominante do capitalismo superdesenvolvido e, ainda, utilizaremos este folheto para denunciá-las uma a uma — pois a desalienação segue o mesmo caminho da alienação.
Até hoje, todas as análises sobre o meio estudantil têm negligenciado o essencial. Nunca ultrapassam o ponto de vista das especializações universitárias — psicologia, sociologia, economia —, mantendo-se, por consequência, fundamentalmente equivocadas. Todas elas cometem o que Fourier já chamava de uma leviandade metódica, "visto que se concentra com frequência nas questões primordiais", ignorando o ponto de vista total da sociedade moderna. O fetichismo dos fatos dissimula a categoria essencial, e os detalhes fazem esquecer a totalidade. Tudo se diz sobre esta sociedade, exceto aquilo que ela efetivamente é: mercantil e espetacular. Os sociólogos Bourderon e Passedieu, em pesquisa intitulada Les Héritiers: les étudiants et la culture, mesmo com as poucas verdades parciais que conseguiram comprovar, permanecem desarmados. E, apesar de toda a sua boa vontade, recaem na moral dos professores, na inevitável ética kantiana de uma democratização real através de uma racionalização real do sistema de ensino, isto é, do ensino do sistema; ao mesmo tempo que seus discípulos, os Kravetz, julgam fazer parte de uma multidão que aviva o espírito, mistificando sua amargura pequeno-burocrática com um amontoado de frases revolucionárias obsoletas.
A espetacularização da reificação no capitalismo moderno impõe a cada indivíduo um papel na passividade generalizada. O estudante não foge a esta regra. Trata-se, no seu caso, de desempenhar um papel provisório que o prepara para o papel definitivo que virá a assumir, na sua qualidade de elemento positivo e conservador, no funcionamento do sistema mercantil. Este papel nada mais é que uma iniciação.
Essa iniciação retoma, magicamente, todas as características da iniciação mítica, mantendo-se inteiramente alheia à realidade histórica, individual e social. O estudante é um ser dividido entre um estatuto presente e um estatuto futuro — claramente distintos — cuja fronteira será mecanicamente ultrapassada. A sua consciência esquizofrênica permite ao estudante isolar-se em uma "sociedade de iniciação", ignorando o seu futuro e encantando-se com a unidade mística que lhe oferece um presente protegido da história. A razão desta inversão da verdade oficial — ou seja da verdade econômica — é bastante simples de desmascarar: é difícil encarar a realidade estudantil. Em uma "sociedade de abundância", o estatuto atual do estudante é a extrema pobreza. Originários, pelo menos 80% deles, das camadas que usufruem de rendimentos superiores aos dos operários, 90% dentre eles dispõem de um rendimento inferior ao do mais modesto trabalhador assalariado. A miséria do estudante está aquém da miséria da sociedade do espetáculo, da nova miséria do novo proletariado. Em uma época em que uma parcela crescente da juventude se liberta cada vez mais dos preconceitos morais e da autoridade familiar para participar, precocemente, das relações de exploração declarada do mercado, o estudante mantém-se ainda, em todos os níveis, em uma condição de “menoridade prolongada”, irresponsável e dócil. Se sua tardia crise juvenil o coloca de certa forma contra sua família, ele aceita facilmente ser tratado como criança nas diversas instituições que regem sua vida cotidiana.
A colonização dos diversos setores da prática social encontra no mundo estudantil a sua mais gritante expressão e projeta sobre os estudantes toda a má consciência social, mascarando a miséria e a servidão de todos.
Entretanto, são de ordem bastante diversas as razões que fundamentam o nosso desprezo pelo estudante. Tais razões não dizem apenas respeito a sua miséria real, mas à sua complacência para com todas as misérias, à sua doentia propensão para consumir alienação devotamente, na esperança — diante da falta de interesse geral — de chamar atenção para a sua miséria particular. As exigências do capitalismo moderno fazem com que os estudantes, em sua maioria, venham a ser quadros profissionais secundários — isto é, algo equivalente ao que era, no século 19, a função do operário qualificado. Diante do caráter miserável, facilmente pressentido, deste futuro mais ou menos próximo que o “indenizará” da vergonhosa miséria do presente, o estudante prefere se voltar para o seu presente e decorá-lo com prestígios ilusórios. A compensação, em si mesma, é lamentável demais para servir de conforto, e tampouco com ela poderá cantar alguma vitória no futuro. Esta é a razão pela qual o estudante se refugia em um presente irrealmente vivido.
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