PÓS-ESCRITO: AFIRMAÇÃO SEM CRÉDITO
(*abaixo o corpo do texto de um intertítulo do capítulo do livro)
Dê-me crédito (manter-se em dívida)
O ressentimento está particularmente investido em emoldurar a memória: a memória é o que sustenta o que foi no lugar. Os males, os maus-tratos, os julgamentos e os abusos, tudo isso vem a ser uma câmara de eco que ressoa numa linha firme entre passado e presente, um olhar para o mundo sempre por sobre os ombros. No contexto da dívida a ser paga aos afro-americanos, Fred Moten escreve: “existe uma vertente muito importante, e a consideraremos justa, de estudos afro-americanos e afrodiaspóricos que pode ser situada sob a rubrica da cobrança da dívida. É assim: ‘nós fizemos isso e fizemos aquilo, e continua-se a não reconhecer o que fizemos. Continua-se a nomear incorretamente. Continua-se a não compreendê-lo de maneira violenta. E eu vou corrigir essa história e cobrar esta dívida’. E isso também traz um componente político. A lógica da reparação talvez seja parcialmente sobre isso”. Relembrar vira uma prática cotidiana. O horror da opressão logo ocupa toda a memória. O peso da dívida coreografa todo o circuito. A dívida é real, assim como a memória. O ressentimento é justificável. O ressarcimento faria diferença. Mas isso nos levaria para fora desse ciclo? Não seria esse ciclo, não obstante sua urgência, reativo? Ao trabalhar tão firmemente contra esse ciclo, não se diminui a intensidade do ainda-não da experiência se fazendo? Moten continua: “eles querem uma admissão da dívida porque isso constitui uma forma de reconhecimento, e isso é muito problemático, visto que a forma de reconhecimento que eles querem está inserida em um sistema já existente. Eles querem ser reconhecidos como soberanos pela soberania, num certo sentido”. Nos termos do ressentimento, a dívida torna-se o crédito que conserva a continuidade de certa versão da vida. Uma dívida que permanece ainda sem ser pagar, uma dívida que o futuro não pode retificar. A dívida cria um ciclo que nos deixa ressentidos. Esse ciclo é familiar, sua previsibilidade nos é uma salvaguarda, por isso permanecemos habitando o seu circuito fechado, mesmo que nos torne infelizes. Gostaríamos de seguir adiante, de estar em outro lugar, mas essa passagem do passado para o presente parece sempre levar às mesmas condições de endividamento. Se ao menos conseguíssemos nos livrar dessa dívida, sabemos que nos sentiríamos melhor. Se ao menos conseguíssemos crédito suficiente.
A afirmação nietzschiana energiza essa passagem. Cria as condições para entrarmos de outras maneiras, por outros caminhos. Um outro traçado se revela. O traçado afirmativo é acidentado e instável. Aqui não há nenhuma rota já trilhada. Esse traçado não sabe seu fim. Não promete nada. Não concede nenhum crédito, não restitui nenhuma dívida. A afirmação sabe o seguinte: o crédito é o que nos mantém endividados. “Eles dizem que nós temos muitas dívidas. Nós precisamos de um bom crédito, mais crédito, gastar menos. Eles nos oferecem uma renegociação do crédito, consultores de crédito, microcrédito, planos de financiamento exclusivos. Eles prometem equiparar novamente crédito e dívida, dívida e crédito. Mas nossas dívidas continuam ruins”.
Nossas dívidas continuam ruins porque nos devem tanto quanto nós os devemos. Devem-nos um mundo melhor. Devem-nos reparações pelo racismo, pelo sexismo, pelos horrores dos genocídios a que sobrevivemos, pelos abusos sexuais com os quais temos que conviver. Devem-nos pelos julgamentos que enfrentamos todos os dias em um mundo que se recusa a nos acomodar, um mundo que nos exclui de uma educação adequada. E nós devemos. Nós devemos ao meio ambiente melhores condições de sobrevivência, de florescimento. Nós devemos às crianças mais oportunidades de movimento, para exploração independente. Nós devemos às mulheres que dormem na rua. Nós devemos aos drogaditos que sofrem de doenças mentais. Nós devemos aos homens negros que não podem andar em segurança à noite. Nós devemos às mulheres indígenas que continuam desaparecendo. Nada disso está em questão. Somos o que nos é devido e somos o que devemos.
Uma cultura afirmativa não nega que existe uma dívida infinita a ser paga. A diferença é que a resposta à dívida, ao endividamento, não é reativa. O que a impede de recair no ressentimento é a recusa de permanecer em um desejo irrealizável. Em vez disso, ela se move em outra direção e pergunta, como Moten e Harney, o que mais?. O que mais podemos fazer em face de uma dívida impagável? O que mais podemos fazer em uma cultura de crédito que gera ressentimento? De que outra forma o sofrimento pode ser mitigado? Vamos ser claros: a quitação da dívida jamais desfará esse sofrimento profundo e determinante. Pode apenas reconhecê-lo. E, apesar de esse reconhecimento ser importante, ele é suficiente? Não creio nisso. Esse reconhecimento nos mantém dentro do mesmo círculo estreito. O reconhecimento faz com que permaneçamos atados ao modo de criação da experiência orientado pelo perpetrador: o pagamento da dívida é, no fim das contas, sempre feito em nome do soberano, que, agora, tem o poder de pagar e de conceder o perdão. Acreditar que o pagamento é possível, acreditar que o pagamento cumprirá a tarefa, que o pagamento aquietará a angústia e mudará o que está em jogo, que o reconhecimento da nossa dor pela classe dominante alterará fundamentalmente nossas condições, é, ainda, não importa quão significante, uma volta à dialética.