CONTEÚDO 

SOBRE A BENGALA DA MICROPOLÍTICA - Ali do Espírito Santo

Se moram nas micropolíticas a potencialidade dos processos de individuação de um sujeito, é na cooptação desse discurso pelas políticas neoliberais que essa mesma potencialidade torna-se esgarçada tratando, equivocadamente, a estruturação da subjetividade como um processo individual e desconectado do coletivo. No texto, o autor ainda fala sobre esse agenciamento como um meio de enfraquecer enfrentamentos necessários para a ocorrência de mudanças nas esferas de poder.

Valie Export, Genital Panik, 1969


É em tempos de precariedade imaginativa que a memória parece aguçar-se. Mas isso nem sempre quer dizer que haja nítidas lembranças dos percursos que percorremos em nossas vidas. É sempre um peso fazer esse exercício de conectar as constelações que nos atravessam politicamente nessas brechas que a catástrofe abre no agora. Esse peso que martela a memória me leva também a pensar naquilo que me vincula ainda à ação insurgente e, portanto, a uma fidelidade com a revolução. Esse estrondo de memória que dobra sobre si mesmo realiza um retorno atualizado do vivido e pode luciferizar fracassos, desviar caminhos ou encontrar rotas inexploradas até então.


O ano é 2012, me encontro envolvido com vários grupos políticos focados em questões de sexualidade e gênero. Desde o final de 2008 uma intensa movimentação, recortada pelos feminismos da terceira onda, atravessou os grupos e organizações em que estava envolvido. Certamente um período de muito trabalho e dedicação, mas foi em Maio de 2012 que de fato sentimos o cheiro de uma possível apreensão do espaço-tempo pelas forças que até então havíamos tentando evocar. Esse ano, no que se refere a visibilidade das lutas do corpo foi, sem dúvida, marcado pela Marcha das Vadias. Todas as possibilidades de transgressão pareciam estar diante dos nossos olhos, prontas para serem absorvidas e vivenciadas no campo da micropolítica.


Desde o A20 [1] de 2001 em São Paulo, nada parecido havia ocorrido, penso, no recorte que possuo enquanto memória revolucionária. Tomar as ruas, organizar-se em coletivos, armar a pauta sobre direções precisas, tudo isso havia desaparecido há muito tempo e, se esteve presente, foi sem ousadia. No contexto pós manifestações de Junho de 2013, a Marcha das Vadias de Porto Alegre colou-se nas tonalidades anarquistas proliferadas, desembocando em uma divisão entre autonomistas e partidárias, marcando aí o desespero ante a disforia representativa que crescia, vingando-se vertiginosamente contra as promessas não cumpridas pela social-democracia.


A minha intenção aqui não é contar uma história a partir de uma fração pessoal de experiências para fortalecer um pedigree revolucionário, mas tentar despersonalizar o campo micropolítico enquanto vontade individual, localizando-o em um plano de relação constante com forças que atravessaram as apostas políticas comuns num determinado momento de minha vida recente. Dizer micropolítico, ao contrário do que muitos pensam hoje, não é o mesmo que dizer “Eu e meu namorado(a) + minha cor + minha sexualidade = nós no nosso apartamento vivendo as minhas/nossas questões”. Ao contrário, o que tornou a Marcha das Vadias um acontecimento em 2012 foi a construção de uma série de espaços concretos e situações específicas em torno dos feminismos ao longo de décadas, no qual o “micropolítico” elevou-se a um grau de materialidade, no qual o pessoal devêm político na medida em que a Casa e as “relações pessoais” estão submetidas à forças maiores, como o patriarcado e seus modelos heterocisnormativos. Porém, racionalizar a implosão das paredes da casa a ponto de culminar num tráfego do pessoal até o público como uma estratégia de luta, revelando um ponto comum entre os corpos que a compõe, não é um fato espontâneo e obedece a uma outra espécie de tráfego: o das forças de resistência em ebulição no imaginário coletivo até o espaço concreto do real. Naquele momento, essa operação de tradução e aliança foi crucial para entender que uma alternativa à hegemonia do patriarcado só se tenciona através da construção de uma outra hegemonia: essa heterogênea e amplamente interseccional.

Lotty Rosenfeld, Una milla de cruces sobre el pavimento, 1979


Naquele contexto, estavam emaranhadas explicitamente as ideias autonomistas. Todo o trabalho em coletivos nos anos anteriores, nas ocupações urbanas, nos grupos de discussão e nas lutas pelo passe livre, tornaram o anarquismo e, portanto, o horizontalismo, ideias atraentes e novas. Junto a isso havia uma discussão empolgante sobre o futuro e as possibilidades de como a esquerda poderia articular seu projeto de mundo novamente, apesar do diagnóstico de impotência ante os grupos já zumbificados dentro da maquinaria populista. Ou seja, até aí houve uma espécie de satisfação com as lutas que ligavam as éticas militantes ao manuseio literal do imaginário enquanto matéria política.


Se houve um momento em que a micropolítica aconteceu no Brasil enquanto proposição radical, ao menos nos recortes da minha recente memória, foi na Marcha das Vadias. Momento em que a fragmentação das lutas do corpo extrapolou a conservação do eu e “suas questões” até um espaço contingente, onde esse eu desfez-se, revelando que a opressão é e sempre será um dado comum.

Mas é preciso dizer, como muitos já disseram, que esse projeto fracassou e o presente posterior a ele foi tomado pela melancolia e consequente derrota. Com a petrificação do imaginário em versões cada vez mais nostálgicas de poder, as formas de futuro desapareceram de cena. E o presente melancólico que se fez ver posteriormente tentou nos convencer de que a emancipação era uma espécie em extinção e que chorar e se ausentar da crítica seria o melhor que teríamos a fazer.


A leitura do que é o político feita pelas lutas do corpo traduziam o vivido em forma de práticas desindividualizantes que se deslocavam até um horizonte de expectativas, muito longe do que vemos hoje através da maquinaria ativista express yourself patrocinada pelo Instagram, na qual derrotar o patriarcado e a cis-heteronormatividade é o mesmo que receber permutas de marcas de moda e afins, trancafiando o político numa abstração moldável por algoritmos. Um dos piores golpes do neoliberalismo foi ter estendido até os espaços de luta a autoestima delirante do antigo manager, onde sempre nos encontramos gerenciando um lobby ou a própria ascensão pessoal.


Mas se queremos de fato retomar uma posição crítica e menos hipócrita com as proposições de mundo daqui para frente, precisamos repensar tudo. A começar pela compreensão do conceito de micropolítica que atravessou nossa língua nos últimos anos. O Brasil é um país singular na recepção da parcela mais radical do pós-estruturalismo francês. Muitos conceitos oriundos dessa verve fincaram uma espécie de paixão condutora para muitos acadêmicos e ativistas. Não vou me ater no que a micropolítica é para seus “criadores”, mas é preciso dizer que, aquilo que entendeu-se dela, passou a funcionar muitas vezes como bengala para uma parcela da classe média politizada da esquerda contemporânea. No contexto brasileiro atual, a micropolítica serve para justificar a falta de unidade visível e de continuidade das lutas em escalas maiores. Dessa perspectiva, já estaríamos fazendo, e fazendo muito, trancafiados em nossas casas e instituições acadêmicas, ou nos pequenos nichos de cultura produzindo pequenas interferências efêmeras.

Regina José Galindo, Quién puede borrar las huellas?, 2003


Por esses ângulos, largar a bengala da micropolítica hoje é restabelecer análises mais precisas, nas quais, por exemplo, não há apenas “novas subjetividades sofrendo agressão”, mas que a violência não é redutível aos atos pontuais sobre nossos corpos. A violência age em potencial num campo superior. Isso significa que é possível responder a ela adentrando potencialmente no mesmo plano em que ela se encontra. Pois se a mesma é um evento de uma esfera dos poderes, enfrentá-la equivale a recuperar o espaço potencial e ocupá-lo novamente. Isso demanda nada mais nada menos que uma organização estratégica que extrapole a cena individual. Pois, no fundo, o erro estaria em pensar que a micropolítica é exímia de relação com o exterior, quando é exclusivamente o fora que organiza e enreda o “micro”. Essa interiorização do político enquanto confirmação de um espaço limitado pelos estilos de vida e pelas subjetividades apenas confirma o fracasso em propor uma outra modulação do real, que não a do capitalismo tardio.


A dimensão enunciativa não é levada em conta nesse contexto, pois os enunciados também são campos superiores e dependem de uma ocupação parcial. Os enunciados de transgressão, por exemplo, estão tomados atualmente pelo fascismo 2.0. “Todo poder emana do povo” ou ser “anti-establishment” não pertencem mais às zonas revolucionárias da esquerda anti-tradição, e sim a uma nova intensidade muito bem articulada na modulação de suas forças.


Nos dias de hoje, se a proposição do campo das lutas do corpo no Brasil se resumir a continuar gritando em nome de uma transgressão oca apenas contra os modelos normativos, esperando a comoção alheia pela inclusão, cavaremos nossa própria cova. As recentes manifestações no Chile em 2019 [2] comprovam que ocupar uma intensidade é ir na direção contrária à pulsão de autoconservação da “vida micropolítica”, e de somente vivenciar os fluxos do capitalismo, sem a menor vontade de traçar uma agência sobre eles. O contexto chileno implodiu essa autoconservação ao apostar que as lutas indígenas, antirracistas e feministas não se reduzem a pautas isoladas do peso material que as medidas neoliberais têm sobre a vida. Destruir essa autoconservação poderia ser a nossa tarefa.


A hipótese de um horizonte anticapitalista pressupõe perceber o capital enquanto uma força coercitiva - o que a retração micropolítica faz de modo muito impreciso. O capital caminha (hoje como nunca) rumo a uma desintegração total da consciência humana, como já dizia Jacques Camatte, em 1973, no livro The Wandering of Humanity. Nossa relação com o capitalismo não é a de um corpo passivo a suas ordens, mas de um submisso voluntário. Submetidos ao seu regime, aceitamos com gosto sua virulenta lógica em nosso sistema racional de decisão, reconfigurando nossos padrões afetivos ao entregar libidinalmente a estruturação do nosso inconsciente às normas de sua gramática pulsional, a qual reintroduz a subjetividade nos sistemas valorativos. Essa força coercitiva depende que as subjetividades estejam sempre autoconservadas na cínica fórmula “progresso = capital”, de modo que os horizontes permaneçam inalterados


Senga Nengudi, R.S.V.P, 1975


Se os estados de catástrofe abrem brechas para o pensamento, então é preciso desviar esse gesto da incorporação nos discursos de urgência. Pois a urgência evita evidenciar os percursos até o presente das coisas, impondo sempre um futuro sem forma precisa. Se a extrema direita vem ganhando cada vez mais adesão popular em vários países, na medida em que manuseia muito bem as forças disponíveis ao seu favor na construção de um futuro neorreacionário, por que então continuar investindo na timidez de projetos de revolução já falidos?



Notas

[1] Manifestação ocorrida em 2001, organizada por movimentos estudantis, coletivos punks e anarquistas contra a ALCA e a repressão policial, e em solidariedade a levantes de grupos trabalhadores que estavam acontecendo em Quebec.

[2] Em 2019 eclodiram uma série de manifestações no Chile em decorrência da escalada de medidas neoliberais adotadas pelo governo naquele então.


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Ali do Espírito Santo é graduado em Artes Visuais pela UFRGS. Artista visual, educador, performer e ensaísta. Foi gestor do projeto de arte contemporânea com foco na crítica decolonial Casa Peirô 2016/2017. Coordenou o projeto OFICINA EXPRESSA na Casa de Cultura Mário Quintana sobre Performance e Estéticas da Existência 2014/2015. Em 2009, estudou na escola de fotografia GrisArt, Barcelona. Fora do Brasil, expôs no Presse Papier em Trois-Rivières, Canadá (2011) .Em Porto Alegre participou de exposições coletivas no Acervo Independente (2015) e Galeria Península (2016/2017). Sua primeira individual SELVAGEM HIPNAGOGIA realizou-se no espaço expositivo Ado Malagoli, localizada no Instituto de Artes da UFRGS.


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Para ler com o corpo

Nesta série de textos publicados no blog-revista da editora, se prescreve aquelas críticas reflexivas que necessitam primeiro da experiência de um corpo em movimento para que se possa assim ler a contingência de revolta das ruas. Como no lema da GLAC, "Para ler com o corpo" não é apenas uma frase de efeito, mas um modo de ver e tornar o mundo um laboratório político do cotidiano.

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