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REFAZENDO MITOS - Helô Sanvoy


Em Quando as ruas queimam: Manifesto pela emergência, de Vladimir Safatle, o autor, na abertura do texto, escreve o seguinte "pois há algo que pode existir apenas quando as chamas explodem em uma coreografia incontrolada de intensidades variáveis". Pensando sobre esses movimentos delineados por um fogo que queima-constrói, capaz de modificar relações quando se lança a pergunta, em atenção, sobre o que está ardendo, o seguinte texto trata da ação realizada pelo artista Helô Sanvoy, o qual traça, por meio de seu gesto de atear fogo, uma atualização nas histórias que nos circundam.

Para a termodinâmica, o fogo não pode ser entendido como um elemento químico, mas como um evento resultante de uma reação química: a combustão. O fogo é um indicativo de que algo está acontecendo. Experimentos recentes com fogo em microgravidade indicaram a possibilidade da combustão sem a manifestação do fogo. A gravidade de/sobre um evento pode indicar se houve/haverá (e a intensidade das) chamas



Em 2019, as imagens da bandeira Mapuche tremulando sobre o monumento do General Baquedano na Plaza Italia, no Chile, indicou uma vontade coletiva de fazer oposição a um estado das coisas, tendo como um dos meios a tomada de monumentos de poder. Essa vontade coletiva - ou espírito de época -, que segue reverberando em ações em 2020,

possibilitou o aparecimento de alguns trabalhos em arte que se propuseram a discutir esses monumentos; trabalhos tão múltiplos quanto podem ser um trabalho de arte, gerados através das imagens dessas manifestações.


- O valor cobrado para a construção dessas imagens foram os olhos dos manifestantes.


“Refazendo Mitos” parte dessa vontade coletiva de transformação, que começa ganhando corpo na mente de indivíduos. É o desejo de lidar e criar seu próprio espaço de representação e apresentação, de lidar com seus próprios mitos e histórias, com suas linguagens e formas, já que os monumentos resultantes de procedimentos burocráticos, ou de heróis criados, não podem dar conta dessas questões, pelo contrário: violam-nas.


Com a constante presença do fogo na história recente, ocorre um marco de apagamentos e esquecimentos sobre nossa história: museus, igrejas, florestas. Gostaria de falar de outro fogo, o fogo como elemento criador. Esse fogo de que quero falar é um fogo anterior à ideia do fogo de Nero, é um fogo que evoca ou invoca, ilumina, transforma, é a divindade, ou a natureza, é um fogo antropófago



A ação acontece como um invocativo de uma das histórias da origem do nome “Anhanguera”. Se constrói a partir de uma narrativa popular, que oscila entre o mito e o fato histórico. Nessa narrativa, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (Pai), ao se deparar com indígenas Goyá ou Goyazes, notou pequenas peças feitas com ouro. Pediu que os nativos indicassem o local onde encontraram o ouro, e que também dessem passagem pelo seu território. Ao ter seu pedido negado, Bartolomeu ameaçou colocar fogo nos rios da região. Para provar sua capacidade, colocou um pouco de cachaça em uma vasilha, com a premissa de ser água, e ateou fogo. Ao virem o fogo no vasilhame, os nativos indicaram o local do ouro e se renderam. Por esse feito, Bartolomeu foi batizado pelos nativos como "Anhanguera” (do tupi "diabo velho", ou "espírito maligno"). A história é abordada na pintura Anhanguera, de Theodoro Braga [1], e também é abordada no poema O Anhanguera, de Baptista Cepellos [2]. Historicamente, a narrativa passa por algumas variações. O feito de colocar fogo em cachaça é atribuído ao bandeirante Bento Pires, e teria acontecido entre São Paulo e Minas Gerais, e não na região do estado de Goiás. Mas a que mais prevalece, popularmente, é a narrativa de Anhanguera, responsável pela construção de sua imagem. Repousada sobre esse conto, a ação foi realizada no dia 4 de fevereiro de 2020.

Enfim, o trabalho consiste em provocar uma chama temporária, com tecidos encharcados com material inflamável, no “Monumento ao Anhanguera, 1924”, de Luigi Brizzolara, localizado no parque Trianon, na Av. Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP). A ação foi preparada entre setembro e outubro de 2019. A primeira tentativa de realização se deu em 11 de novembro de 2019.  Há um grande monitoramento ao lado da escultura pois, a cerca de 5 metros, encontra-se uma unidade da Polícia Militar ativa 24h, o que a tornou uma ação de risco. Por isso, só se deu após cinco tentativas. Durante o processo ( tentativas, conversas, registros), tive o auxílio de alguns amigos: Dheyne de Souza, Galciane Neves, Vitor César, Claudio Bueno, Helena Tourinho, Juliana Ferreira, Paloma Durante, Cicero Costa, Val Souza, Lilian Amaral, Clarisse Tarram e Marcio Silveira.


O fogo como “material” para a realização da ação entra como elemento de ligação entre a narrativa da origem do nome “Anhanguera”, e o embate entre duas culturas diferentes. O uso desse fogo parte de um gesto de apropriação de um fogo que tem seu lugar no tempo, fazendo a tentativa de tornar o mito/fato histórico presente sobre o monumento. Há dois fogos evocados, e que estão presentes no trabalho simultaneamente: o fogo do truque e o da divindade. Anhanguera inverteu o ritual invocativo (do fogo) e o levou para o campo do truque/charlatanismo; com o truque não há divindade no fogo, mas a perdição e o sofrimento eterno do fogo da condenação (cristã). Essa visão de mundo é introduzida ao interior do país com a entrada dos bandeirantes. É esse mesmo fogo que se faz presente no descaso com o patrimônio público que consumiu o Museu Nacional, o Museu da Língua Portuguesa, o Memorial da América Latina, o MAM/RJ. Sob esse signo, dá-se a passagem da "civilização" para além do Tratado de Tordesilhas, e a continuidade do ciclo da caça e da privatização do humano; da perseguição da propriedade fugitiva (escravizados) sob o signo de desbravadores, a criação da imagem de heróis inventados, religiosamente legitimados e perdoados pela “Doutrina da Guerra Justa”.

No cerrado, a vegetação existe juntamente com o fogo, recebe-o do céu, queima-se e rebrota do tronco encarvoado ainda vivo. Suas raízes são duas vezes maiores que suas cabeças. Enquanto seu topo incendeia, molham seus pés nos rios por debaixo da terra, ao contrário dos pés em fila, que tateiam a poeira da superfície das trilhas, sujeitos ao fogo romano. Monumento erguido às poeiras.



O gesto de colocar fogo vem da relação com o mito como criação política, colocando a construção idealizada dos bandeirantes como desbravadores e construtores nacionais em oposição ao mito como relação simbólica construída ancestralmente, e transmitida por gerações como forma de ser e interpretar o meio. Essas duas formas de se entender o mito parecem conflitantes. De um lado, tem-se uma construção a partir da imposição da narrativa. De outro, uma relação de vivência gestada morosamente, sempre em movimento.



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Helô Sanvoy é natural de Goiânia (1985). Vive atualmente em São Paulo. É mestrando pela ECA/USP e licenciado pela FAV/UFG. É membro do coletivo de performance Grupo EmpreZa desde 2011. Como artista individual, busca significados através dos diferentes modos de leitura, impossibilidades de comunicação e processos de silenciamento. Foi premiado no 23º SALÃO ANAPOLINO DE ARTE (2012 e 2017) e no 7° SALÃO DE ARTES PLÁSTICAS DE SUZANO (2011). Realizou exposições individuais no MAC/GO (2014), na CAL/UnB (2014), na Referência Galeria de Arte (2018 - Brasília) e na Andrea Render Arte Contemporânea (2017, 2018 – São Paulo). Possui obras em acervos no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), no Museu de Arte do Rio (MAR), no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC-GO), na Casa da Cultura da América Latina da Universidade de Brasília (CAL/UnB). Participou de exposições coletivas como: Bienal 12 – Feminino(S) Visualidades, Ações e Afetos (Bienal do Mercosul); “ZONA DE PERIGO”, do 5ª Prêmio Marcantonio Vilaça (2016) e “POROROCA: A Amazônia no MAR”, no MAR-RJ (2014).


Notas do texto:

[1] Anhanguera, 1927, Theodoro Braga, encontra -se no Museu Paulista da USP;

[2] O Anhanguera, Baptista Cepellos, publicado no livro “Os Bandeirantes”, de 1911.


Notas da edição:

Ficha técnica dos trabalhos apresentados -


Helô Sanvoy

Refazendo Mitos. 2019/2020. 

Intervenção

Registro: Lilian Amaral, Clarisse Tarran e Helena Tourinho. 

Helô Sanvoy

Invocar / Evocar.  2019/2020. 

Proposição


Acesso ao vídeo do trabalho Refazendo Mitos -

https://vimeo.com/393904429


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Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com






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