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OS AUTÔNOMOS NA FRANÇA PÓS MAIO DE 68 - Jean-Baptiste Casanova

Atualizado: Mai 11


Legenda: fotografia de registro após intervenção pública do grupo interdisciplinar paulista Viajou Sem Passaporte em 27 de abril de 1979. "Trajetória do Curativo" constituiu-se na constatação de que todas as pessoas tendem a notar alguém com um curativo no rosto. Um elemento do grupo com um curativo no olho entrava no ônibus, pagava a passagem e descia no ponto seguinte, no qual outro elemento com curativo subia no ônibus, repetindo-se a ação por 8 vezes seguidas, tornando assim o curativo um passageiro. No último ponto, uma pessoa carregava um cartaz que deflagrava a ação.



Pensamos em iniciar o programa de publicações acerca das primaveras ao redor do mundo com algo que pudesse introduzir certo posicionamento editorial diante das perspectivas revolucionárias que emergiram desde que o desejo comum por um mundo outro se tornou também meio de fazer da vida algo intrinsicamente político. Neste texto traduzido do francês pelo nosso amigo Gustavo Racy, um dos editores do sobinfluencia, selo que realizada o programa Maio Insurgente junto da GLAC edições, poderá se perceber um debate caro ao histórico 68 francês, que fez inúmeros estudantes universitários do período buscarem a tradição anônima como caminho de fazerem circular suas ideias e suas, principalmente, ofensivas violentas ao sistema social e cultural capitalista do período. O que segue aqui é uma introdução às próximas 3 sexta-feiras, em que teremos textos sobre os maios italiano, japonês e brasileiro (?). Avante em uma releitura do passado para disjunção do presente com seu mundo!


Legenda: poderá se observar que as imagens que compõem a publicação desse texto contam uma história, ou melhor, projetam uma ação revoltosa que ocorre no passado brasileiro, que toma de assalto a própria subversão e a inverte em outra, como se numa delinquência juvenil apenas o ato pudesse "ensinar" o público à revolução. As imagens se referem a uma intervenção do grupo interdisciplinar paulista Viajou Sem Passaporte no espetáculo "O Aniversário da Mãe" de Augusto Boal em 1980. Cremos que apenas ao fim do texto poderá se tornar claro o motivo de unirmos os dois diferentes e distintos contextos entre imagem e palavra nesta publicação.


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A França parece ter sido poupada pela fogueira de violência política que tanto a Alemanha e a Itália conheceram no decênio seguinte ao Maio de 68. Apenas alguns incidentes se produziram e poucos grupos se orientaram pela luta armada. Se a Gauche Porlétarienne [Esquerda proletária - GP], possuía um ramo militar (a NRP), na véspera do choque que provocou o assassinato de Pierre Overney (um jovem O.S. maoísta morto à queima-roupa por Jean-Antoine Tramoni, chefe do serviço de segurança, diante das usinas Renault), a GP se dissuadiu de se engajar em uma resposta armada. Parece, assim, que o pior foi evitado.


Entretanto, alguns anos depois, no momento mesmo em que a Alemanha e a Itália conhecem o apogeu da guerra entre Estado e grupos armados, a atualidade francesa vê aparecer uma nova movimentação na extrema esquerda que parece não querer o enfrentamento violento: os “Autônomos”.


Sua aparição e estrondo são contemporâneos dos sequestros de Hans Martin Schleyer e de Aldo Moro, do caso Mogadíscio e da morte de Baader. Entretanto, a despeito da prosa alarmista da imprensa, os autônomos do Estado francês se afrontarão sem chegar aos extremos dos atentados na Alemanha e na Itália.


Diversas fontes estão disponíveis para estudar o movimento autônomo: a imprensa cotidiana, num primeiro momento, e particularmente as reportagens de Laurent Greilsamer lançadas na Le Monde e na correspondência do Libération, na qual os autônomos tomavam a fala. Igualmente úteis são os principais jornais publicados no seio do movimento autônomo: Marge, Matin d’un blues e Camarades, sem negligenciar os diversos panfletos, brochuras e publicação da Autonomia. De outra parte, um dossiê de informações gerais é dedicado à Assembleia parisiense de grupos autônomos e uma reportagem é consagrada à Autonomia. Finalmente, os testemunhos dos agentes se tornaram particularmente preciosos para identificar o que foi o cotidiano desta movimentação.


Nós veremos que a violência, intimamente ligada à Autonomia, não se desenvolveu de maneira mais ampla no seio dos grupos engajados na luta armada.



A Autonomia: uma nova radicalidade?


A noção de Autonomia é uma noção recorrente no pensamento de esquerda e na história do movimento operário. Já no Século XIX, a Autonomia operária postula dois imperativos, meios únicos de trazer à luz uma vontade revolucionária ao seio da classe operária. Destarte, é a autonomia desta classe em relação a esfera do capital, assim como a autonomia face aos sindicatos e partidos políticos. O primeiro destes imperativos tem como consequência a vontade de criar uma esfera autônoma da classe operária, não regida pelas leis do mercado, desenvolvendo, por exemplo, novas formas de sociabilidade e solidariedade. Daí se descola o segundo imperativo: a submissão dos sindicatos à economia não permite a emancipação do movimento operário face ao capital, uma vez que os partidos estão necessariamente condenados a certo compromisso, na medida em que aceitam o jogo político.


A aplicação destes princípios traz à tona uma nova prática: a ação direta. Esta elimina toda instância intermediária na luta de classes sem tomar de empréstimo “as vias normais da democracia, apelando ao parlamentarismo, mas, ao contrário, a uma ação que terá como recurso a violência”.


Estas ideias aparecem ao redor do sindicalismo de ação direta, de Fernand Pelloutier, no final do Século XIX, mas a Autonomia operária experiencia sua ressurgência após Maio de 68. Em 1970, por exemplo, uma brochura publicada pelo grupo Vive La Révolution [Viva a Revolução - VLR] termina com o slogan “Viva a autonomia proletária”. Do mesmo modo, estudantes da Universidade de Vincennes constituem, logo após o Maio de 68, “grupos autônomos se encontram nas manifestações com barras de ferro e coquetéis Molotov. Eles se intitulam ‘grupos autônomos libertários’ ou ‘grupos autônomos de ação’”.


Mas o verdadeiro renascimento da Autonomia Operária se faz na Itália. O país conhece uma situação particular, pois, com o “outono quente” de 1969, o mês de maio perdura e se torna um “maio prolongado”. Além disso, os atentados fascistas como aqueles ocorridos na praça Fontana de Milão, em 12 de dezembro de 1969, contribuem à radicalização dos atores sociais, bem como da repressão, especialmente quando um novo proletariado se constituiu a partir dos anos 1950 e 1960 pela enorme massa de jovens operários originada das regiões do sul, vindos trabalhar nas usinas do norte. Essa massa adota novas práticas, como a greve selvagem, o absentismo ou a sabotagem, se diferenciando dos sindicatos e dando pouco ouvido às suas reivindicações.

“essa massa colérica de jovens meridionais, livres do controle que a Igreja exercia tradicionalmente nas regiões campestres, encontra nas usinas do norte a escola da luta de classes e a tradição da subversão revolucionária advinda da Resistência”

Durante a primeira metade dos anos 1970, este tipo de mobilização se estende cada vez mais entre as usinas, mas também “sai das usinas” e se direciona à luta dos encarcerados, das mulheres ou dos sem-moradia. Sobre o mesmo modelo, vem então a greve de alugueis, ou as “autorreduções” (uma “nova forma de desobediência civil constituída por refutar os aumentos nos serviços de fornecimento de eletricidade e de telefonia”, e que é legitimada como uma forma “de ilegalismo popular”).


A partir de 1973, desaparecem os principais grupos políticos, animados por seus militantes, o Potere Operaio [Poder Operário] e o Lotta Continua [Luta Contínua]. Já há alguns anos teóricos e universitários viam nestes novos movimentos sociais o renascimento do movimento operário. O “compromisso histórico” entre os diferentes partidos políticos, entre eles o PCI [Partido Comunista Italiano], anunciara o fim da classe operária. Como reação, o “operaísmo”, que nasce no início dos anos 1960 ao redor da Escola Operaísta e, depois, de Mario Tronti, deseja recompor uma classe operária revolucionária. Os principais animadores desta corrente são Oreste Scalzone, Mario Tronti e Toni Negri. Este último, excluído do Potere Operaio, constitui um polo Autônomo junto ao grupo Gramsci de Roma e ao redor do jornal Rosso. Forjam-se, então, conceitos teóricos novos para explicar e organizar o fenômeno social e político italiano. Segundo tais conceitos, o “operário social” sucede o “trabalhador-massa”. Como tal, o operário social não está mais acantonado nas usinas, mas presente em toda a sociedade. Trata-se de jovens, estudantes proletarizados, desempregados, excluídos do reino do trabalho e, ao mesmo tempo, indiferentes ao trabalho e à luta sindical. São definidos como rejeitadores dos valores da civilização industrial, da cultura do trabalho e do progresso pela indústria. O trabalhador social deseja satisfazer suas necessidades imediatamente e não crê mais no esforço que lhe asseguraria mais tarde, assim como não crê mais no militantismo do “amanhã que canta”. Ele é um agente central das lutas do amanhã, pois é explorado mais do que qualquer outro.


O conceito de Autonomia Operaria aparece em 1973 no Congresso de Bolonha quando uma parte da juventude, depois das dissoluções do Potere Operaio e do Lotta Continua, se reconhece no trabalhador social de Negri. Para esse “proletariado juvenil”, a liberação não passa mais pela conquista do poder, mas pelo desenvolvimento de um “ar social capaz de encarnar a utopia de uma comunidade que se revela e se organiza fora dos modelos econômicos, do trabalho e do salário” e, portanto, pela efetivação de um “comunismo imediato”. A política se torna “libidinal”, ditada e submissa ao desejo e às necessidades. Articulada ao redor de centros sociais nos quais jovens de bairros populares se reuniam e nos quais se improvisavam a autodefesa e a democracia direta. Esse “comunismo imediato” se traduziu, no plano prático, pela difusão sem precedente de ações diretas. Trata-se de “reapropriações” (roubos, hold-up...), pensadas como levantamento parcial de um “salário social”, bem como de autorreduções, ocupações ilegais de habitações, os squatts, que são uma experiência de auto-gestão e de vida alternativa mas também de “mercados políticos” (pilhagem de grandes áreas comerciais e culturais).


A aparição da autonomia na França


Na França, também, a entrada na luta por parte de grupos sociais como os trabalhadores imigrantes na luta (Movimento de Trabalhadores Árabes ou greve de habitação da Sonacotra), mas também da população carcerária, dos trabalhadores e trabalhadoras do sexo, dos homossexuais ou mesmo das feministas, assim como o desenvolvimento da ecologia, trazem à tona novas concepções à extrema-esquerda. Frustrados pelo fracasso da fusão das massas que pretendia suscitar os maoístas “estabelecidos”, certos militantes viram nestes movimentos novas forças revolucionárias com as quais era necessário construir uma convergência. Umas das primeiras experiências neste sentido é a criação da revista Marge em 1974. Nascida no sei dos meios libertários, fortemente influenciada pelos intelectuais da Universidade de Vincennes, Gilles Deleuze e Félix Guattari, a revista é fundada por Gérald Dittmar e pelo psicólogo Jacques Lesage, de Haia.


No editorial, eles escrevem:

“A iniciativa de criar um jornal que será um suplemento de todos os nômades, de todos os revoltados, de todos os reprimidos desta terra – que são os marginais – de todos aqueles, enfim, que jamais tiveram o direito unicamente de se calar, foi tomada como tarefa por tal grupo, que encontrou uma resposta à questão ‘o que se pode fazer?’”.

Sua vontade é a de reunir todos os marginais e todos os desorganizados, pois o objetivo é “fazer da marginalidade uma consciência política nova”, lembrando-se que “nenhuma classe é portadora do futuro, ou da verdade histórica”. Sua orientação política é caracterizada principalmente pela luta contra a psiquiatria e contra as prisões. Com algumas edições impressas em até 10.000 exemplares, e com a participação de personalidades como Félix Guattari, Daniel Guérin ou Serge Livrozet, a revista Marge aparece, como analisa Laurent Chollet, como “um dos polos mais atrativos da cena radical”.


Ao mesmo tempo, ao redor da Rua d’Ulm, em París, o operaísmo italiano faz seus primeiros adeptos franceses. Yann Moulier, estudante da Escola Normal Superior, organiza ali conferências sobre a Autonomia e se torna tradutor de Negri. Ele reúne um núcleo que publica, a partir de 1976, o jornal Camarades, que se fixa com o objetivo de “fazer circular a informação, ou seja, de constituir um polo que reúne e redistribui as informações concernentes às diferentes lutas e, assim, favorecer a convergência política”. O objetivo é, portanto, o de ler a situação francesa e desenvolver novas formas de lutas em comparação com as ideias vindas da Itália. Paralelamente, Yann Moulier inicia um projeto editorial com Christian Bourgois lançando a coleção Cible, na qual publica o livro de Mario Tronti Operário e Capital, seguido de Para Além de Marx, de Negri.


O grupo em torno da Camarades fortalece, também, a vontade de reunir diferentes coletivos desorganizados que aparecem a partir de 1973. O grupo lança um apelo, neste sentido, no início de 1976, que se traduz pelo estabelecimento de um Coletivo de agitação. Este coletivo se relaciona com os grevistas das habitações do Sonacottra, mas também com o Movimento dos Trabalhadores Mauricianos. Ele é apoiado por grupos de estudantes como o Coletivo estudantil autônomo de Tolbiac – que pratica suas autorreduções nos restaurantes universitários –, e pelos grevistas da BNP Barbès, que, dispensados pelos sindicatos, são sensíveis às ideias da Autonomia Operária.


Uma reação à violência de Estado


O verão de 1977 é marcado pela manifestação de 30 e 31 de julho contra o protótipo de usina nuclear Super Phénix, de Creys Malville. Palco de violentos confrontos com as forças da ordem, a manifestação é ensanguentada pela morte de um militante ecologista, Vital Machalon. O choque é grande e contribui ao reforço da audiência aos autônomos, que se beneficiam do eco do “Movimento de 1977” italiano. Eles são os únicos a prometer uma resposta e a falar, de novo, em autodefesa. Os autônomos veem na manifestação de Malville “o grau de militarização que o Estado está pronto a empregar para defender uma 'questão de interesse nacional'”. No Libération, eles reclamam:


se dar os meios de atingir os terrenos que nos convêm, o terreno de nossas necessidades, seja o nuclear, seja o emprego, seja as questões das mulheres, dos trabalhadores imigrantes, dos jovens proletários”.


Em outubro de 1977, temos um momento marcado pelo “caso alemão” e o arrebatamento da guerra que opõe a Fração do Exército Vermelho ao Estado federal. Em primeiro de outubro, Klaus Croissant, advogado de Baader e da RAF, é detido na França e recebe sua extradição. No dia 13, um avião da Lufthanse, que cobria o trecho Palmas de Mallorca-Franfurt, é desviado em direção a Mogadíscio por um comando próximo à RAF. Na noite do dia 17 para o dia 18 de outubro, pouco depois da intervenção antiterrorista em Mogadíscio, Jan-Karl Raspe, Gudrun Ensslin e Andreas Baader morrem em suas celas, na prisão de segurança máxima de Stammheim. Nisso, ainda, os autônomos são os únicos a reivindicar uma reação radical por meio de manifestações “ofensivas”, como a de 21 de outubro no quartier Saint-Lazare, ou a de 18 de novembro contra a expulsão de Klaus Croissant.


Se resulta assim que jovens cada vez mais se reconhecem na Autonomia e se unam às ações da Assembleia parisiense dos grupos autônomos que se reúne em Jussieu a partir de 20 de outubro. Um movimento autônomo se organiza ao redor de Camarades, representando seu ramo “organizado”. A ele se unem “desorganizados advindos das faculdades e das periferias, libertários e militantes da Marge. O sucesso desta assembleia se explica, segundo as Atas Gerais, por seu papel de ‘polo atrativo que falhou em permitir o estopim de uma violência e um ressentimento geralmente mal contidos’”. A Assembleia toma, então, iniciativas: ela organiza uma reunião abortada em Saint-Lazare, mas ocupa, sobretudo, os locais da Libération no dia 24 de outubro, em reação à maneira em que o periódico trata o caso alemão (renvoyant dos-à-dos l’état allemand et la raf).


Assim, se o movimento autônomo parece aportar um apoio à RAF, os militantes exprimem algumas dúvidas a propósito da luta armada. Bob Nadoulek escreve em Camarades que “A RAF é fruto da militarização do velho movimento revolucionário; a violência deve ser diferente”, e ele qualifica o terrorismo como a “lógica autista do desespero”.


Estigmatização do movimento


Apesar destas dúvidas expressas sobre o terrorismo, a autonomia, durante as manifestações, aparece à imprensa como uma ameaça real. Le Figaro adverte que "os vários milhares endurecidos - prontos para a luta, com os cassetetes ou coquetéis Molotov na mão, estão prontos para dar o mergulho e ir até o crime?”


O mesmo se aplica às organizações de extrema esquerda. A Liga Comunista Revolucionária (Ligue Communiste Révolutionnaire - LCR) é então a mais virulenta oponente dos autonomistas. Julgando seu comportamento uma manifestação de "comportamento fascista", os militantes trotskistas prometeram que as coisas com eles, "serão resolvidas com uma barra de ferro". Como resultado, os confrontos são frequentes, a sede da Liga é atacada em várias ocasiões e a procissão autônoma se manifesta aos gritos de “Encontre-nos Croissant, nós lhe daremos Krivine” (Alain Krivine, importante militante trotskista).

A violência exercida pelos autônomos também preocupava as forças da lei e da ordem, especialmente porque uma verdadeira sociedade paralela de Autonomia estava surgindo dentro dos squatts e universidades. Os squatts se multiplicam no 19º distrito, próximo a Belleville em torno da Villa Faucheur, no 13º em direção à rua Nationale e no 14°, no quartier Alésia. Neles, frequentemente, havia shows de rock. Durante um show gratuito no La Villette, "Serge", um jovem autonomista foi assassinado. Entretanto, os serviços de inteligência, questionando como controlar e supervisionar o crescimento do movimento, se alarmam com as condições em que esses jovens marginalizados vivem.


"O fechamento da Maison pour tous (Casa de Todos), a destruição do prédio na rua Lahire, a prisão de alguns membros conhecidos [...] e a morte de [Serge], esfaqueado até a morte no hipódromo de Pantin, causou uma explosão de fadiga psicológica. A este respeito, não se deve ignorar que existe uma certa "miséria psicológica" entre os autônomos. Vivendo sem higiene, sem recursos definidos, numa promiscuidade esperada, mas pesada e cheia de conflitos, não tendo certeza do dia seguinte, os autônomos estão sujeitos a desequilíbrios mentais que só os sujeitos muito endurecidos poderiam sofrer sem danos".



Rumo à luta armada?


Esta situação resulta numa crescente radicalização do comportamento dos jovens próximos à Autonomia. Assim, a marginalidade empurra alguns deles para a delinqüência, o que é reivindicado como uma prática revolucionária. São as "operações tênis " que consistem em sair sem pagar por restaurantes, mas também roubo e punga, ou, então, uma delinquência mais elaborada (esquemas de seguros...). Outros vão um pouco mais longe em ações de maior escala, como a vasta operação de “recuperação" (reapropriação) lançada por um grupo contra uma loja de departamentos parisiense durante as comemorações de final de ano em 1977 ou o roubo de um banco no 16º distrito de Paris em 30 de maio de 1980, onde um autônomo foi morto pela polícia.


Da mesma forma, a demonstração "ofensiva" foi otimizada, como revelou a manifestação dos siderúrgicos de Lorena em 23 de março de 1979, onde o material ofensivo era escondido ao longo do percurso em carros, vans ou armários de estações. Esta manifestação foi ocasião para uma tentativa repressora pelas forças da lei e da ordem. Naquela mesma manhã foi organizado um grande cerco para evitar que a marcha "degenerasse" em manifestação, levando à prisão de 82 supostos líderes autonomistas. A manifestação foi, no entanto, o cenário de confrontos violentos nos quais 116 policiais foram feridos, 54 lojas foram "quebradas", 121 vitrines foram danificadas e 131 pessoas foram presas.


Face a esta violência crescente, antigos militantes vindos da Marge e da Camarades, se reagrupam em torno de Bob Nadoulek para fundar, em 1978, a Matin d’un blues. O jornal se definiu como a área desejosa da Autonomia e pretendia renovar o movimento, descolando-o da supremacia da violência por meio da contra-cultura e da alternativa.


“Nos bateremos em todas as frentes: na música, nos livros, na política, em nosos assuntos cotidianos, na repressão, com desenhos, com conceitos, com carinhos, a dentadas, se necessário for, mas reinventaremos a vida; a nossa, pelo menos”.


Entretanto, a constituição deste polo contra-cultural não desvia os mais radicais de sua lógica de enfrentamento e excesso, assim como do engajamento na luta armada. Já nas origens do movimento, a questão da luta armada estava no centro dos debates, especialmente após a execução de J.-A. Tramoni pelos Noyaux Armées Pour l’Autonomie Populaires (Núcleos Armados pela Autonomia Popular – NAPAP), em 23 de março de 1977. Do mesmo modo, a construção do Super Phénix suscita atentados como os de 8 de julho de 1977 contra o diretor da EF, M. Boiteux, reivindicado pelo Comité d’action contre les crapules atomiques (Comitê de ação contra os crápulas atômicos – CACCA), ou os 23 atentados cometidos por todo o território, reivindicados por uma Coordination Autonome Radicalement en Lutter Ouverte contre la Société (Coordenação Autônoma Radicalmente em Luta Aberta contra a Sociedade – CARLOS). Pois desde 1977, pessoas se encontram no seio da Autonomia para formar uma corrdenação política e militar clandestina, interna ao movimento. Podemos contar, entre elas, os militantes vindos das Brigadas Internacionais, das NAPAP, os anti-franquistas dos Groupes d’Action Révolutionnaires Internationalistes (Grupos de Ação Revolucionários Internacionalistas – GARI), e do Movimento Ibérico de Liberação, integrado por Jean-Marc Rouillan.


Este último grupo reúne em torno a si algumas pessoas vindas da Autonomia para funder a Organisation Action Directe (Organização Ação Direta – OAD), que, em 1º de maio de 1979, metralha a fachada do CNPF. No outono, a OAD se torna a Action Directe (Ação Direta).


A violência política desempenha, assim, um papel propulsor na consitutição do movimento autônomo, atirando contra ele os desorganizados, a quem prometem uma resposta contra o Estado. Mas a chegada massiva de jovens cada vez mais radicais inquieta os mais antigos. Yann Moulier explicará que “a chegada de zumbis no movimento, que foram rapidamente catalogados como próximos às BI e à GARI, dá arrepios”. Este ponto de vista deve ser relacionado à tentativa de desenvolver uma área contra-cultural de Bob Nadoulek que era, portanto, o teórico da violência no seio da Camarades em suas primeiras edições. Esta ruptura é sem dúvida uma das razões da rejeição à luta armada. À exceção de algumas pessoas que passam à Action Directe, poucos iniciarão uma guerra com o Estado francês por meios outros que o motim. De qualquer modo, o Estado não emprega vastas políticas repressivas contra os autônomos a não ser o saqueio de 23 de março de 1979. Resulta que na França, não se conhece uma violência inflamada como a dos países vizinhos durante os anos 1977-1979, como se de ambas as partes, uma certa moderação tenha sido conservada. O fato é que a Autonomia aparece ainda hoje como uma das experiências políticas mais radicais na extrema-esquerda. Foi isto que garantiu sua posteridade entre certos jovens (squatters, punks, “casseurs” ou black blocks...), mais de vinte anos depois.




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Jean-Baptiste Casanova é um intelectual militante francês anônimo.

Gustavo Racy é tradutor e editor do sobinfluencia edições, e doutor em Ciências Sociais pela Universidade da Antuérpia. Especialista na obra de Walter Benjamin, dedica-se ao estudo da cultura visual em sua relação com a história e a política. Também escreve poesia, tendo publicado em periódicos literários.


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Nota da edição

* Título original: Les Autonomes. Le mouvement autonome parisien de la fin des années 1970

* Retiramos todas as notas de rodapé, assim como suas referências bibliográficas, pois, em sua grande maioria, dirigem-se a documentos proibidos, censurados e "extintos" pelos Estados no decorrer do tempo, hoje espalhados por diversos arquivos, bibliotecas e boutiques ao redor do mundo. Logo, de pouco em pouco, iremos publicar essas e outras pérolas do pensamento político radical e subjetivo do passado autonomista, de modo seguro e esclarecido, é claro.


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Maio Insurgente * Leia o outro texto do Maio Insurgente, publicado pelo sobinfluencia, um manifesto inédito em português e redigido no calor das manifestações de maio de 68, publicado na revista de arquitetura Le Carré Bleu (3-1968), com tradução também de Gustavo Racy, Proposições preliminares por uma revolução cultural.


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Atenção

* Se você se interessou pelo assunto e não o conhecia antes, é possível se aprofundar com leitura do livro Isto não é um programa: Órgão de ligação no seio do Partido Imaginário, publicado originalmente em 2001, na segunda edição da revista anônima francesa Tiqqun, e publicado no Brasil pela revista Dazibao e GLAC edições, com traduzido por Daniel Lühmann. No livro se aborda a luta autonomista diante das práticas e dos pensamentos surgidos na Itália de 1977 em contraposição às lutas de maio de 68 na França.

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