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BORDADO - GESTO CARTOGRÁFICO - Blenda Souto Maior


Usando do bordado como disparador, Blenda tece diálogos entre a literatura produzida por mulheres negras, e a construção de uma palavra-matéria nascida da leitura/escuta dessas narrativas. Tratando o bordar como uma espécie de cartografia de afetos, nasce dessa prática o laboratório Ponto em Verso, no qual a artista, por meio dessas aproximações, resgata o bordar enquanto espaço de partilha e alinhavo de histórias.


Gosto de pensar o bordado como um gesto de cartografia que o corpo desenvolve a cada ponto, criando um mapa de tessituras que aponta para um percurso de des-conquista de territórios. Bordando com linha e agulha, desvelo camadas do invisível, materializo subjetividades e mais um emaranhado de latências pulsantes de magma que emergem e se constituem em costura elaborada.



Legenda: Bordado feito pela artista


bordado. Conhecimento passado pela oralidade. Conhecimento que está inscrito no gesto, no corpo, na memória.


Lembro das tardes ao lado da minha avó que, sentada em seu terraço, passava horas mergulhada em meadas e carretéis, entre pontos perfeitos e pétalas que desabrochavam em sua companhia. Era tanto tempo, que ela costumava ver as flores de seu jardim abrindo enquanto bordava. De suas netas fui a única que aprendi a bordar, é a minha herança; o bordado de minha avó vive em mim. Mas essa herança veio carregada de rigidez. “Muito siso e pouco riso”, ela dizia. O avesso deveria ser perfeito. Os pontos precisam estar retos. Desfaz. Refaz.


Cresci em uma família de mulheres muito sérias, pouco dadas ao carinho. Mulheres de muito siso e pouco riso, que não permitiram ter as suas carapaças perfuradas para revelar seus interiores. Foi preciso percorrer o caminho apontado nas cartografias dos meus bordados-mapas para entender aquela herança rígida como pedra. Que o ato de desfazer e refazer que minha avó tanto apontava em demasia, era uma indicação que trava sobre mim.

Legenda: Bordado feito pela artista


do têxtil ao texto


Compreender o bordado como uma escrita do corpo, que se inscreve através do gesto e da memória, me permitiu percorrer caminhos em busca de “um reencontro com o im-próprio” (ROCHA, 2020) de mim, com histórias de silenciamentos e apagamentos que as mulheres austeras da minha família sempre evitaram ver e falar. Do que é ser mulher, nordestina e negra.


Os trânsitos e imbricações entre a palavra e a costura estão postas. “Texto”, em sua origem etimológica, deriva do termo em latim “textum”, que significa tecido, entrelaçamento. Ou ainda a palavra “têxtil”, em sua ambivalência, acolhe tanto o universo da literatura, como do bordado. Expressões como “o fio da meada”, “quem conta um conto, aumenta um ponto”, nos mostram esse longo caminhar. Quando essas duas linguagens se encontram, quando com a literatura se intersecciona com o bordado, é inundação, transborda.



Legenda: Bordado feito pela artista


Foi no trânsito entre o bordado e a literatura de autoria negra e feminina que eu encontrei a minha encruzilhada. Esse plurilugar que constitui-se em potência na afirmação e resgate de um passado, para reivindicar a minha identidade. A trajetória percorrida que me levou a encontrar o caminho de uma experiência afro-diaspórica, uma experiência que é coletiva, que foi tecida em fios de apagamentos e arrematada no silêncio. A encruzilhada me permitiu encontrar as direções e entender a condição de sujeita em trânsito, tomando direções que se imbricam, que se cruzam.


Esse foi o processo para re-constituir uma identidade que foi fraturada, para encontrar um lugar dentro desse tecido social brasileiro, buscar uma pertença e des-conquistar os territórios do corpo, do sensível, do pensamento e da memória. Desfiar os fios que nos foram entregues, que a colonialidade produziu, para encontrar outros devires e dizeres, mundos outros presentes nessas encruzilhadas.


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Blenda Souto Maior é educadora e pesquisadora, com experiência nas áreas de mediação cultural, mediação de literatura e educação museal. É graduada em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e mestranda no Programa de Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, na FFLCH/USP. Mulher negra e nordestina, sua pesquisa percorre os universos da palavra, das relações sociais e de poder, com foco na produção literária de autoria negra e feminina, em diálogo com o feminismo negro. Utiliza a arte têxtil em suas práticas educativas para construir espaços de investigação, sociabilidade e partilha de saberes. Atualmente se dedica à pesquisa e à realização de e ações educativas de mediação de literatura em instituições culturais.


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Notas do texto:

MARTINS, Leda. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Revista Letras n. 26. Universidade Federal de Santa Maria, 2003.


ROCHA, Marília L. Os Canela e eu. In ReVista - Harvard Review of Latin America. 2020. Disponível em: https://revista.drclas.harvard.edu/book/os-canela-e-eu?admin_panel=1. Acesso em 02 de outubro de 2020


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Notas da edição:

O projeto Ponto em Verso foi contemplado pelo Edital de Mediação em Arte e Cidadania Cultural do CCSP, e será realizado em formato online a partir deste mês de outubro. O ateliê tem como proposta explorar o acervo do centro cultural, e estimular a aproximação do público com a literatura por meio de exercícios de criação com linha e agulha.

Para saber mais sobre o projeto:

Facebook - www.facebook.com/Ponto-em-Verso-115974120267714/

Instagram - @projetopontoemverso


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Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com






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