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REPENSANDO O APOCALIPSE: UM MANIFESTO ANTI-FUTURISTA INDÍGENA - Indigenous Action

Atualizado: Jul 10

… Essa é uma transmissão de um futuro que não vai acontecer


Legenda: fotografia da performance Pajé-Onça: Hackeando a 33ª Bienal de Artes de São Paulo, de Denilson Baniwa, realizada em 2018. Seu registro em vídeo pode ser assistido aqui. Créditos da foto: José Moreau.

Logo quando foi lançado, em 19.03.20, no site oficial do grupo Indigenous Action, ficamos muito entusiasmados em traduzir e publicar, e quando decidimos pôr a mão na massa, descobrimos que nosso amigo do A Fita, Amauri Gonzo, já havia traduzido e publicado em menos de um mês em seu canal. Sem pestanejar, furtamos o texto de lá e o trouxemos para cá. Sinta o fervor do real!



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“O fim está próximo? Ou ele já veio e passou antes?” Um ancestral


Por que conseguimos imaginar o fim do mundo, mas não o fim do colonialismo?

Nós vivemos o futuro de um passado que não é nosso. É uma história de fantasias utópicas e idealização apocalíptica. É uma ordem social global patogênica de futuros imaginados, construída sobre genocídio, escravidão, ecocídio e ruína completa.

Quais são as conclusões de que devem ser tiradas em um mundo construído sobre ossos e metáforas vazias? Um mundo de finais fetichizados, calculados por entre a ficção coletiva de espectros virulentos. De tomos religiosos ao entretenimento científico ficcionalizado, cada linha do tempo previsivelmente imaginada; começo, meio e, por último, O Fim.

Inevitavelmente nessa narrativa há um protagonista lutando contra um Inimigo Outro (um apropriação genérica da espiritualidade Africana/Haitiana, um “zumbi”?) e alerta de spoiler: não sou eu nem você. Tantos estão ávidos por serem os sobreviventes solitários do “apocalipse zumbi.” Mas essas são metáforas intercambiáveis, esse zumbi/Outro, esse apocalipse. Essas metáforas vazias, essa linearidade, existe apenas na linguagem dos pesadelos, elas são parte da imaginação e impulso apocalíptico. Tal maneira de “vida“, ou “cultura“, é também uma forma de dominação que consome tudo apenas para seu próprio benefício. É uma reorganização econômica e política para acomodar um realidade suportada por pilares de competição, posse, e controle em busca de lucro e exploração permanente. Professa “liberdade” enquanto sua fundação é definida pelo roubo de terras, enquanto a sua própria estrutura é composta de vidas roubadas. 

E essa própria “cultura” que sempre necessita de um Outro Inimigo, para culpar, reivindicar, afrontar, escravizar e matar. Um inimigo subumano sobre o qual todas as formas de violência extrema não são apenas permitidas, mas esperadas. Se não há um Outro imediato, ele é meticulosamente construído. Esse Outro não é feito de medo, mas a sua destruição é impelida pelo medo. Esse Outro é constituído de axiomas apocalípticos e angústia permanente. Esse Outro, essa doença weitko (I), é talvez melhor sintomatizada no seu estratagema mais simples, que é o do nosso silenciado refazer: Eles são sujos, Eles são inadequados para a vida, Eles são incapazes, Eles são incompetentes, Eles são descartáveis, Eles são infiéis, Eles são indignos, Eles foram feitos para o nossos benefícios, Eles odeiam nossa liberdade, Eles não têm documentos, Eles são queer, Eles são pretos, Eles são índios, Eles são menos, Eles estão contra nós, até que, finalmente, Eles não existem mais. Nesse constante mantra de violência reformulada, é Você ou Eles. Esse é o Outro que é sacrificado por uma continuidade imortal e cancerosa. É o Outro que é envenenado, bombardeado, deixado silenciosamente sob os escombros. Essa maneira de não-ser, que infectou todos os aspectos das nossas vidas, que é responsável pela aniquilação de espécies inteiras, a intoxicação dos oceanos, do ar e da terra, da devastação e da queima de florestas inteiras, do encarceramento em massa, da possibilidade tecnológica de existência de armas de guerra que podem acabar com o mundo, e do aquecimento das temperaturas em uma escala global, essa é a política mortal do capitalismo, ela é pandêmica.

UM FIM QUE JÁ ACONTECEU.


Legenda: projeto Alvos Vivos de Denilson Baniwa, descrito do seguinte modo em seu site; "118 indígenas foram assassinados no Brasil em 2016. Mas isto é só uma face da violência com que seres humanos indígenas tem que sobreviver todos os dias. Violências morais, psicológicas, sexuais, sanitárias, institucionais e outras que minam nossa auto estima, nosso valor de ser humano antes de tudo. Alguns pensam que as balas que cortam e furam a carne é o que mais nos mata, mas, para além disso, o Estado estruturou outros meios mais sutis e mais eficazes, basta que os que nos querem mortos façam suas escolhas e cabe a nós indígenas o quê? Morrer. Escolha o que lhe parece menos doloroso ou que doa menos na sua consciência para matar um índio: bíblia, arma, suborno ou a indiferença. 1 - Esquema de montagem: mesa com bíblia aberta, arma carregada, moedas e notas."


A invasão física, mental, emocional e espiritual das nossas terras, corpos e mentes para assentar e explorar se chama colonialismo. Naus navegaram em ventos envenenados e marés ensanguentadas através dos oceanos, empurradas a fôlego curto e um impulso em escravizar, milhões e milhões de vidas foram silenciosamente extinguidas antes que conseguissem nomear seu inimigo. 1492. 1918. 2020…

Cobertores como armas biológicas, a matança do nosso parente o búfalo, o represamento dos rios que nos dão vida, o arrasamento da terra imaculada, os deslocamentos forçados, a prisão dos tratados, a educação coerciva através do abuso e da violência. Dia após dia após a guerra, após o genocídio, negociando a humilhação pós-colonial do nosso lento suicídio em massa no altar do capitalismo; trabalho, renda, pagar o aluguel, beber, trepar, procriar, aposentar, morrer. Está na beira da estrada, à venda em mercadinhos indígenas, servindo bebidas no cassino, reestocando tendas, são os simpáticos índios ali atrás, você.

Esses são os presentes dos infestados destinos manifestos, que são os imaginários futurizados que nossos captores nos fizeram perpetuar e participar. A impiedosa imposição do seu mundo morto foi impulsionada por uma utopia idealizada como ossuário, era “para o nosso próprio bem”, um ato de “civilização” Matar o “índio”; matando o nosso passado e com ele nosso futuro. “Salvar o homem”; impondo outro passado e com ele outro futuro.

Esses são os ideais apocalípticos dos abusadores, racistas e hétero-patriarcas. A fé cega doutrinal daqueles que só conseguem ver a vida através de um prisma, um caleidoscópio fraturado de uma guerra total e sem fim.

É um apocalíptico que coloniza nossas imaginações e destrói nosso passado e futuro simultaneamente. É uma luta pelo domínio do sentido humano e de toda existência.

Esse é o futurismo do colonizador, do capitalista. É ao mesmo tempo todo futuro já roubado pelo saqueador, do estuprador, do propagandista de guerra.

Sempre foi a respeito da existência e não-existência. É o apocalipse, realizado. E com a única certeza de um final mortal, o colonialismo é uma praga (prefiro o efeito também).

Nossos ancestrais entenderam que essa maneira de ser não teria como ser persuadida ou negociada. Não poderia ser mitigada ou redimida. Eles entendiam que o apocalíptico só existe em absolutos.

NOSSOS ANCESTRAIS SONHARAM CONTRA O FIM DO MUNDO.


Legenda: Arqueiro Digital, 2017, Denilson Baniwa. Descrição pelo artista: imagem realizada a partir da gravura Caboclo (1834), de Jean-Baptiste Debret, a mesma que Vicente do Rego Monteiro usou para criar a “Atirador de Arco” que revolucionou o modo de usar a cultura indígena como “inspiração”, no caso a cultura Marajoara.


Muitos mundos existiram antes deste. Nossas histórias tradicionais estão firmemente entrelaçadas com o tecido do nascer e morrer de mundos. Através desses cataclismos nós recebemos muitas lições que moldaram quem somos e como somos uns com os outros. Nossos modos de existência são informados na busca pela harmonia através da destruição de mundos. A Elipse. Nascimento. Morte. Renascimento.

Temos um sem-número de histórias sobre histórias do mundo que é parte de nós. É a linguagem do cosmos, ela fala através de profecias há muito cravadas nas cicatrizes onde nossos ancestrais sonhavam. É a dança-fantasma, as sete fogueiras, o nascimento do Búfalo Branco, a sétima geração, são os cinco sóis, está escrita em pedra perto de Oraibi e além. Essas profecias não são só preditivas, elas também são diagnósticas e instrutivas.

Nós somos os sonhadores sonhados por nossos ancestrais. Nós atravessamos o tempo entre os suspiros dos nossos sonhos. Nós existimos ao mesmo tempo que nossos ancestrais e as gerações por vir. Nosso futuro está em nossas mãos. É nossa mutualidade e interdependência. São os nossos parentes. Está nos vincos das nossas memórias, gentilmente abertos pelos nossos ancestrais. É o nosso Tempo do Sonho, e é Agora, Antes, Amanhã, Ontem.

A imaginação anti-colonial não é uma reação subjetiva aos futurismos coloniais, é um futuro anti-colonizador. Nossos ciclos de vida não são lineares, nosso futuro existe sem tempo. É um sonho, não-colonizado.

ESSE É O ANTI-FUTURO INDÍGENA.


Legenda: ilustração Tupã Salve a Cacique. Infogravura, 2015, Denilson Baniwa.


Não estamos preocupados em como nossos inimigos nomeiam seu mundo morto e como eles reconhecem e certificam a nós ou nossas terras. Não estamos preocupados em re-trabalhar as maneiras com que eles gerenciam o controle ou em honrar seus acordos e tratados mortos. Eles não serão compelidos a parar com a destruição que está prevista para o seu mundo. Nós não advogamos junto a eles para acabarem com o aquecimento global, uma vez que essa é a conclusão do seu imperativo apocalíptico e a sua vida se apoia na morte da Mãe Terra. Nós enterramos a direita e a esquerda juntas na terra que estão tão famintos para consumir. A conclusão da guerra ideológica das políticas coloniais é a de que os povos indígenas sempre perdem, a não ser que percamos a nós mesmos. Capitalistas e colonizadores não vão nos guiar para fora dos seus futuros mortos. A idealização apocalíptica é uma profecia auto-realizável. É o mundo linear acabando a partir de si mesmo. A lógica apocalíptica existe em uma zona morta espiritual, mental e emocional que também canibaliza a si mesma. São os mortos levantando-se para consumir toda a vida.

O nosso mundo vive quando o mundo deles deixa de existir.

Como índios anti-futuristas, nós somos a consequência da história do futuro do colonizador. Nós somos a consequência da sua guerra contra a Mãe Terra. Nós não vamos permitir que o espectro do colonizador, os fantasmas do passado, assombrem as ruínas deste mundo. Nós somos a realização das nossas profecias. Essa é a re-emergência dos ciclos do mundo Essa é a nossa cerimônia. Entre céus silentes. O mundo volta a respirar, e a febre baixa. A terra está quieta. Esperando para que nós ouçamos.

Quando houver menos distrações, vamos ao lugar de onde nossos ancestrais emergiram.

E as vozes deles/nossas.

Há uma canção mais antiga que os mundos aqui, ela cura mais profundamente do que a lâmina do colonizador pôde cortar.

E lá, a nossa voz. Sempre fomos os curandeiros. Esse é o primeiro dos remédios.


Colonialismo é uma praga, capitalismo é uma pandemia.

Esses sistemas são anti-vida, eles não serão forçados a curar a si mesmos. Nós não vamos permitir que esses sistemas corruptos e doentes se recuperem. Nós vamos nos alastrar.

NÓS SOMOS OS ANTICORPOS.


+

Adendo: No nosso passado/ seu futuro foram ataques assistemáticos, não-lineares, a infraestruturas vulneráveis e essenciais como postos de combustíveis, corredores de transporte, fontes de energia, sistemas de comunicação e mais que fizeram o colonialismo impossível de acontecer nessas terras.

  • Nossa organização era celular, não precisava de nenhum movimento formal

  • A cerimônia era/ é nossa liberação, nossa liberação era/ é nossa cerimônia.

  • Nós honramos nossos ensinamentos sagrados, nossos ancestrais e gerações vindouras.

  • Não nos creditamos por nada. Não enviamos nenhum comunicado. Nossas ações eram a nossa propaganda.

  • Nós celebramos a morte da solidariedade esquerdista e o seu romantismo apocalíptico míope.

  • Não exigimos nada dos nossos colonizadores/ capitalistas.



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Nota IWeitko, Wintko, Windgo, Wiitiko: não humanos que povoam cosmologias de alguns povos nativos norte-americanos. Seres que eram humanos mas se transformaram em não-humanos antropofágicos insaciáveis, com o interior do corpo gelado e que veem, ouvem e farejam os humanos como presas. Alguns motivos podem levar um humano a transformar-se em weitiko, como: ter comido carne humana por motivo de necessidade em períodos de inanição, feitiçaria ou através de sonhos nos quais são levados por weitkos metamorfoseados em humanos a comer carne humana que parecia ser carne de caça.


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Indigenous Action foi fundado em 25 de agosto de 2001 com a finalidade de fornecer comunicações estratégicas e apoio à ação direta para defesa das terras sagradas da comunidade indígena. É um grupo voluntário radical de criadores e agitadores de mídia indígenas anticolonial e anticapitalista que trabalham coletivamente para a libertação da Mãe Terra e de todos os seus seres. Ao longo dos anos, organizaram centenas de ações, marchas, workshops, conferências, etc.

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