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DIÁLOGOS COM UM BLOCO DE NOTAS SOBRE ARTE - adnarim rogi




Legenda: Anotações e planejamentos do autor para pensar suas visitas no espaço expositivo


Pode-se dizer que o espaço é sempre a experiência de quem o experiencia. Quando então nos perguntamos o que lá está, essa pergunta chega sempre com certo atraso. A questão é simples: organizar um texto sobre a experiência é sempre uma tarefa do depois. Por isso há de se prestar atenção em algumas anotações que surgem logo após uma efervescência: elas são, ao mesmo tempo, pista de um acontecimento passado e percurso da formação de um pensar no ponto de desdobrar-se (ver, e ver depois de olhar). O seguinte texto é a abertura de alguns diálogos de um educador com seu bloco de notas, acompanhado de planejamentos, esquemas, dúvidas surgidas do trânsito em espaços de exposição.


Confirmo, estou vendo, tem uma massa de homens à minha frente. Essa visão coincide plenamente com a imagem da massa de trabalhadores das imagens que cresci vendo, as manifestações que ocupam o imaginário coletivo por marcar grandes feitos [?]. A imagem a minha frente coincide em aspectos, em quantidade, em proporção, em tema, em necessidade ou demanda, em forma. Se tirassem uma foto desse momento e mostrassem contando "o grande feito" [talvez] acreditasse. Porém, aquilo que estaria a minha frente não seria visível. Veria uma grande peça, limitada em um palco; mais ainda, enquadrada em uma foto. Seria semelhante a um acontecimento memorável; o memorável em sua forma de ritual. Poderia considerar algo visível, caso não fosse apenas uma imagem projetada, sobreposta ao real.

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Resolvi apresentar para vocês um pouco sobre como imaginei a arte nos último tempos, no diálogo com meu bloco de notas sobre arte. Brevemente, vale a pena ressaltar que essas observações ocorreram em andanças pela cidade, entre os prédios abandonados que pude presenciar, e em meio as exposições de arte que trabalhei e/ou visitei. Logo, é um apanhado de imaginações e ideias, alargadas em embates com colegas, ou na disputa por narrativas com instituições. Dito isso, gostaria de deixar o texto em aberto. Enfatizo essa ideia da abertura não por mera retórica, ou falta de posicionamento, mas pelo interesse em pensar o problema ao invés de ficar abstraindo em soluções. Sim: pensar o problema sem querer de imediato solucionar. E não se trata de um problema em específico. Grosso modo, vale apenas destacar três coisas aos amigues. Primeiro, entrei em conflito com a ideia de arte pela monumentalização da coisa quando chamada de obra - isso pode ser um equívoco, mas é algo que tenho em vista a trabalhar. Segundo, me interesso pela imaginação sobre o objeto arte, tanto faz o objeto em si. Terceiro, chamarei de “arte suja” ou “não arte” coisas repletas de possibilidade de imaginação, mas que não são contidas na fronteira das artes. No final das contas, arte não é o objeto de interesse em si. Mas, o problema permeia essa questão.


Legenda: Anotações e planejamentos do autor para pensar suas visitas no espaço expositivo


A arte diz que vai dizer algo, provoca inquietação sem chão. A pichação rasga a arte provocando na ausência da face, cor ou vida, o inverso. A ausência mais presente no arquipélago da cidade, prédios cheios de coisa morta. É inoportuno da dita “arte” delimitar a pichação como face da barbárie; renegando a última se constrói as fronteiras da primeira. Não é apenas a pichação o inverso da arte, a problemática no mundo das artes é a não arte. Atribuir um papel de sujeito a arte não significa delimitar esta na sociedade, mas afirma que esta é delimitada pela mesma. A arte plena de si mesma não ultrapassa o piso da galeria para as ruas sem ter em registro a funcionalidade de arte. Talvez, problematizar a ideia de arte sirva de abertura para imaginação.

Ao mesmo tempo, repudio a pichação em todos os campos da aceitação, como arte, política ou marca. Essa contradição de ser “não arte” é o que possibilita a abertura que tenho em vista. Afirmo esse comentário grotesco sobre arte, pois “arte suja” é repleta de desconfiança. Chamo de arte suja, aquilo que é material de conflito com a artes, o importuno do cotidiano.

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A arte tem fronteiras em sua prática e teoria. Mesmo quando fruto da abstração, ela compõe diálogo, narrativa e conflito - metáfora... como coisa real ao espaço. O descompasso visualizado é a noção programada da arte ser tudo. Esse é outro ponto que vivo incomodado. A estrutura valoriza e irradia a arte como se fosse uma entidade sobre a realidade, isso prejudica a interação das pessoas com a coisa - “chamada de obra”.

Fica subentendido a necessidade de entender e valorizar a realização do artista. A arte como uma coisa a ser acessada, distinta do indivíduo. A arte suja, por sua vez, é um elemento construtor da vida, não deve ser vista de modo segregado, mas disperso ao cotidiano. Considero que arte é imaginação; e o objeto de arte a possibilidade de desconfiar. Logo, não precisamos ter em mente a obra ou o espaço ocupado como um fim ao processo. Não importa onde esteja, o relevante é o modo de visualizar o objeto. Isso é o que considero arte suja: possibilidade de imaginação não restrita a uma estrutura.

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Passei os últimos dias pensando em como a arte contemporânea explorou o uso dos materiais. Em uma exposição pode ter uma banana, com um pedaço de fita, e isso ser compreendido como material de arte. Esse mesmo material não passa por um processo de transformação radical a ponto de se tornar outra coisa. Talvez, o objeto passe a ser uma rachadura para nossa concepção de arte. O problemático dessa brincadeira é esse objeto assumir um valor brutal sobre a realidade, não vou entrar nos méritos sobre o valor da arte em si, mas arte é mercado, produto e especulação também. O que os artistas contemporâneos descobriram foi outra forma de envolver a materialidade nas artes, e a sociedade capitalista de agregar valor de consumo. Fiquei pensando tanto nisso a ponto de considerar que o objeto em si não serve de nada.


Legenda: Anotações e planejamentos do autor para pensar suas visitas no espaço expositivo

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Dentro de outra exposição, pensei muito sobre o que as obras tratavam e, espero que isso não seja grosseria da minha parte, mas havia uma falha sensível na relação curadoria, artista e público. Na medida em que a exposição leva em consideração aspectos de coesão para chegar ao público, os vínculos se resumem ao dispêndio de informações ou/e experiência.

A coisa agora é obra, e como a arte não é mais suja, torna-se, texto e narrativa a grupos e agentes sociais. Assim, arte no contexto serve de produto. Talvez eu esteja passando dos limites. Mas, troca entre coisa e pessoas transgride o campo arte e se dissolve ao cotidiano. Delimitar o que é arte, em certa medida, aqui, foi uma relação praticada quando se convive com obras, pessoas e espaço. Inverter a relação, entre objeto de arte e arte, é forjar a possibilidade da imaginação, e não serve só ao especulativo.

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Não nego que aprendi bastante circulando de local em local, nesse espaço-tempo entre as exposições e o cotidiano. Porém, esse aspecto "livre" cerceia, de tempos em tempos, com certos entraves. Cada fim de trabalho significa ir atrás de outro; cada jornada passa a ser um "outro começo". Cada passagem em um local é seguido por uma conurbação de ideias sobre o conceito dos objetos [?]. O que tenho em vista é a problemática dessa desagregação de vínculos. ‌Em uma conversa com uma colega de trabalho pensamos como a equipe foi se despedaçando, como éramos pedaços complementando esse jarro. O trabalho de educador e as relações em nível institucional, na escala mais alargada possível, é necessário para sujar um pouco arte da exposição.

Gostaria de esboçar onde se encaixa a função de educador dentro dessa dinâmica de trabalho. Os estagiários são ferramentas para o alargamento de sentidos sobre as "obras" presentes nesse espaço; se por um lado somos contidos em certos limites das funções e dinâmicas de cada instituição, pela chave inversa, o papel do educador, como propositor, é o de uso das coisas como ferramenta. Não se trata de reduzir os trabalhos, mas de entender que a realização da obra de arte é distinta da interação com o objeto. Não são peças que se complementam, pois a arte não se forja por natureza, mas pelo contato entre as pessoas. O diálogo com as pessoas sobre diversas temáticas não se restringe a fronteira da arte.

Mediação é arte suja.

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adnarim rogi é estudante de história, educador e operário da cultura.



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Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com






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