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 CONTEÚDO 

CARICATURAS DA INTERNACIONAL SITUACIONISTA: UMA CONVERSAR — Gérard Berréby e Raoul Vaneigem

  • 1 de ago.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 3 de ago.

Fotografia de Raoul Vaneigem publicada no instagram @sagastijose



Em homenagem ao legado de Raoul Vaneigem, que faleceu na última terça-feira, 28 de julho de 2026 e em continuidade à série de publicações que vem sendo realizada no blog-revista da GLAC edições, que busca divulgar o lançamento de um importante documento histórico da luta dos estudantes e trabalhadores na França, o editor juan rodrigues traduziu um trecho da conversa entre Gérard Berréby e Raoul Vaneigem, qual foi originalmente publicada no livro Self-Portraits and Caricatures of the Situationist International (Colossal Books, 2016, Nova Iorque).


Em novembro de 1966, há 60 anos atrás, era publicado um dos panfletos mais incendiários do século na cidade francesa de Estrasburgo. Escrito por Mustapha Khayati, Guy Debord e outros membros da Internacional Situacionista, Sobre a miséria do meio estudantil continua, até hoje, denunciando o estatuto da universidade de ser uma engrenagem de produção de especialistas, gestores e futuros administradores da ordem.


O trecho selecionado da conversa publicada aqui, que originalmente conta com mais de duzentas páginas transcritas, é um relato de Vaneigem sobre sua relação com Mustapha Khayati e o processo de escrita do panfleto que incendiou Estrasburgo e, posteriormente, toda a França.



Nunca, e com boa razão, um confronto absoluto chegou a seu termo.

A luta final conheceu apenas falsos inícios até hoje.

Tudo deve ser retomado desde o começo.

A única reabilitação da história é nos ajudar a fazê-lo.


(Raoul Vaneigem - A arte de viver para as futuras gerações)



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Caricaturas da Internacional Situacionista


Gérard Berréby: Me parece que nos seus trabalhos, assim como nos de Debord, a grande preocupação era a de marcar determinadas posições, de ocupar determinados espaços.


Raoul Vaneigem: Era daí que tudo poderia começar a emergir… quando explodiu maio de 1968, os resultados superaram as nossas expectativas. Mesmo que tivéssemos previsto, desejado e nos preparado para isso. “Sobre a miséria do meio estudantil” serviu como um estopim poderoso. No início, eram aqueles estudantes… foi tudo ideia do Mustapha Khayati. As experiências que teve em Estrasburgo o levaram a formular uma crítica do sindicato estudantil - a UNEF [1]. Ele tinha tido a ideia de escrever um panfleto: Sobre a miséria do meio estudantil. Ele rascunho um texto e propôs um título. Diversas alterações foram feitas. Entretanto, não foi um trabalho coletivo. O texto de Mustapha foi apenas levemente modificado. A frase de abertura do panfleto é dele: “Podemos afirmar, sem grande risco de erro, que o estudante na França, depois do policial e do padre, é o ser mais universalmente desprezível.” O panfleto foi publicado com o dinheiro desviado [détourné] do sindicato estudantil. Sua influência foi notável… foi distribuído por todas as partes. Inspirou as insurreições de Nanterre, plantou algumas tretas no meio estudantil… os mais escorraçados foram os primeiros a reagir publicamente ao panfleto, possibilitando, assim, uma ampla divulgação a ele. Sobre a miséria do meio estudantil verdadeiramente desempenhou o papel de um fogo no pavio.


[G.B] Mustapha era um grande leitor de Marx, Lukács e Hegel. Ele havia tido alguns professores de certo renome em Estrasburgo. Ele também foi a pessoa que escreveu o livreto sobre a Les Marxismes que seria publicado na Encyclopédie du monde actuel em janeiro de 1970.


[R.V] O marxismo de Mustapha era perfeito. Por esse motivo ele era recebido com muito entusiasmo pela Internacional Situacionista (IS)... tem isso das pessoas, ao falarem sobre as produções da IS, sempre destacarem o Société e o Traté [2]. Sobre a miséria do meio estudantil geralmente é uma produção menos mencionada.


[G.B] A anonimidade combinava com o espírito daquele tempo.


[R.V] O importante era o texto, não a autoria.


[G.B] A prioridade de vocês era a de espalhar ideias e de despertar mentes. Isso era incompatível com a busca por fama ou dinheiro. 


[R.V] Nós criticamos o surrealismo suficientemente bem para saber que o nome não vale de nada, o que importa mesmo é aquilo que é expresso.


[G.B] Como era ser um colega de Mustapha?


[R.V] Muito prazeroso. Ele tinha apenas um pequeno defeito: ele era um pouco mão de vaca. Costumávamos rir muito disso. Sempre falávamos sobre como ele simplesmente sumia na hora de pagarmos pelas nossas bebidas. Debord disse uma vez: “ainda vamos nos vingar dele.” Um dia, pela Rue des Rosiers, bebemos whisky, spirits caros e algumas outras bebidas que raramente bebíamos. Então, dissemos para Mustapha, “essa é sua.” Ele pagou com uma nota muito alta… depois desse evento, ele começou a pagar mais por suas bebidas. Não que ele pagasse sempre, mas tudo bem… nada demais. Mais adiante, isso que Debord fez seria um agravante de todo o problema. Tirando isso, ele era uma boa companhia: prazeroso, gentil, gostava de beber - cerveja mais do que vinho - e sabia beber sem perder o rigor de seu pensamento, seu julgamento político, da mesma forma que Debord. Eu, por outro lado, era péssimo em conciliar essas coisas. 


[G.B] E como era a relação dele com Debord?


[R.V] Muito amigável, mas menos baseada em confiança e intimidade do que em admiração intelectual. Essa admiração era o que nos ligava e estimulava. Entretanto, em algum momento deixamos que o rigor de nosso pensamento ocultasse as lacunas da generosidade humana, sobre as quais tanto falamos. 


[G.B] Um dia Mustapha dividiu comigo que: “uma parte relativa de nós, das pessoas que circundam Debord, tem questões a serem resolvidas: questões paternas.”...


[R.V] Eu acho isso um exagero. Alguns realmente estabeleciam uma relação paternal com Debord. Ele apreciava a obediência, mas não a incentivava. Mustapha nunca foi obediente. Ele era ferozmente independente. 


[G.B] Como era Mustapha durante as reuniões? 


[R.V] Muito ativo, com o rigor de pensamento pelo qual era conhecido. Ele tinha um senso político que eu nunca tive. Nunca me interessou. Ele se dedicava a isso alegremente. A morte de sua mãe em um bombardeio na Tunísia e sua infância com seu tio constituíram, por outro lado, memórias que ele não saia contando por aí.


[G.B] Você poderia falar do desaparecimento da mãe dele?


[R.V] Ele devia ter uns 4 ou 5 anos quando aviões ingleses, voltando de alguma missão, acharam que seria uma boa ideia soltar as bombas que eles não haviam usado. Eles devem ter achado engraçado a ideia de soltar bombas em um vilarejo - pessoas voando por todas as direções. A mãe de Mustapha correu para escapar do bombardeio com seu filho nos braços. Ela pulou em uma fossa, cobrindo ele com seu corpo, e uma bomba explodiu. Ela morreu. Seu sangue o cobriu… você pode imaginar o trauma…


[G.B] Quando falamos sobre a formação das estruturas psicológicas de uma pessoa, não consigo imaginar em um evento mais traumático do que este.


[R.V] Eu interpretei essa história dele como um sinal de amizade. Ele nunca fez grande caso disso. Nós nunca chegamos a falar sobre isso novamente. O que parece um pouco eloquente. Posso estar enganado, mas acho que ele nunca chegou a contar essa história para Debord. Como eu já disse antes, ele desencorajava confissões.


[G.B] Ele não estimulava confidências.


[R.V] No caso de Mustapha, era mais do que uma questão confidencial; era algo que revelava seu corpo, seus afetos. Era importante que ele falasse sobre seu corpo. Porque, como Viénet, ele tinha um lado mais terreno, ele era mais cerebral, um pouco duro às vezes, ao menos no começo era assim. Mas ele não era um intelectual. Para mim, um intelectual é aquele cujas ideias são separadas da vida pessoal. Mustapha era sensível e atento àquilo que tomava forma no corpo humano e no corpo social. Ele leu Groddeck o bastante para entender a relação entre a cólica nefrítica que tinha e sua dificuldade de escrever o livro sobre Islam que todo mundo o incentivava a publicar… mas ele, mesmo sozinho, dava um jeito de trabalhar essas questões dele… ninguém mais pode fazer isso por você. Para além disso, Mustapha nunca demonstrou o desejo de jogar tudo isso no ventilador de uma forma, digamos, rousseauniana. 


[G.B] Voltando ao seu senso político, Mustapha, como ele te disse, foi criado por seu tio, que era um sindicalista na Tunísia. Quando criança, ele era levado para todas as reuniões do sindicato, onde ninguém prestava muita atenção nele. Ele sempre estava muito animado. Neste meio, ele adquiriu um certo senso de retórica e de estratégia política.


[R.V] Ele também era alguém cujas opiniões acerca de uma pessoa nunca estavam erradas. Ele era muito lúcido - e eu estou falando aqui das dimensões políticas das relações interpessoais. Ele teve um papel importante nas polêmicas que travamos. Ele foi a pessoa que nos acostumou a um certo tom ácido. Ele estava sempre sintonizado com os artistas. Diferente dele, eu não sou capaz de destruir um político por dentro.


[G.B] Não podemos dizer que você tem um temperamento próprio para a política.


[R.V] De forma alguma. Para além disso, eu nutro uma indiferença radical em relação àqueles que cederam à política. Isto é, sem dúvidas, a minha maneira de condenar isso. Mustapha era uma pessoa extremamente discreta. Ele não tinha a sensação de poder, tinha a sensação de presença. Ele nunca buscou se promover. Essa modéstia em excesso certamente não o ajudou em nada.


[G.B] Era tanta discrição que, dentro de seu círculo familiar, ele era chamado de “Ministro do Interior.”


[R.V] Esse apelido faz sentido em relação à forma que ele guardava informações. Ele tinha uma memória fabulosa - algo que eu estou longe de ter. Ele tinha uma memória muito boa. Também me lembro que ele usava óculos pretos.


[G.B] Ele usava óculos bem grossos, sempre um pouco escuros, para corrigir sua miopia. Por conta disso, era difícil saber para onde ele olhava.


[R.V] Mas ele nunca estava escondendo nada.


[G.B] No caso dele, a fantasia era praticamente inexistente.


[R.V] Sim, mas a gente sabia quebrar toda essa rigidez com um pouco de humor. Ele sempre conseguiu manter uma distância irônica entre ele e as coisas… uma distância muito grande, diga-se de passagem, porque - com todo o respeito à miséria do meio estudantil - ele sempre esteve muito distante daquilo que ele realmente era. Quero dizer, ele sempre esteve isolado do coração das coisas. Ele tinha, e ainda tem, uma tendência de se subestimar, de se manter apagado, mesmo com toda a presença que todos reconhecem nele. Ele nunca esteve em risco de ser expulso.


[G.B] Naquele momento, o trio que vocês formavam - Khayati, Debord e você - produziram livros importantes, enquanto Khayati permaneceu anônimo.


[R.V] As obras dos três, largamente difundidas pela imprensa, vieram a reforçar essa ideia militar da “cabeça de ponte.”


[G.B] Essas obras também fugiram dos seus controles. Elas foram traduzidas para um grande número de idiomas. Todos usaram delas, especialmente o sobre a miséria do meio estudantil, graças ao tratado anti-copyright que vocês fizeram parte de toda a agenda da época, por conta de toda essa distribuição massiva.


[R.V] Partes dos textos eram copiadas e circulavam por toda a parte… Nosso trabalho se dissipou por todos os lados do mundo.


[G.B] O que inevitavelmente causou repercussões no grupo e nos indivíduos que o compunham. 


[R.V] O grupo se sobressaía aos indivíduos. Ações individuais ainda não tinham ganhado essas formas particulares de valor agregado: não havia um valor agregado Khayati, ou um valor agregado Vaneigem. Não haviam egos imensamente inflados. Alguns eventos nos colocaram em contato. Antes disso, cada membro trabalhou em seu respectivo canto, separadamente.


[G.B] Essas três publicações vieram para solidificar a organização que vocês, com uma hilária seriedade, chamavam de Internacional Situacionista. 


[R.V] Uma gentileza e uma realidade agradável.




Tradução e adaptação juan rodrigues



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NOTAS:


[1] UNEF: Union Nationale des Étudiants de France é o principal sindicato de estudantes da França, fundado em 1907.


[2] Relacionado aos três textos que consolidaram a IS como movimento. Respectivamente: Sociedade do espetáculo (1967 - Guy Debord); A arte de viver para as futuras gerações (1967 - Raoul Vaneigem); Sobre a miséria do meio estudantil (1966 - Mustapha Khayati).


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juan rodrigues é pesquisador, editor e graduando em geografia no Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo. Integra o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec/Unifesp), onde desenvolve pesquisas e extensão relacionadas aos entrelaçamentos entre políticas de desenvolvimento e programas de segurança no contexto neoextrativista.


A Internacional Situacionista (IS), fundada em 1957 na cidade italiana de Cosio d’Arroscia,

constituiu-se como uma organização artístico-política de vanguarda que resultou da convergência entre membros da Internacional Letrista — liderada por Guy Debord —, do extinto grupo COBRA e do Movimento Internacional por uma Bauhaus Imaginista — ambos animados por nomes como Constant Nieuwenhuys e Asger Jorn —, e de outros pequenos grupos europeus. Atuante até 1972, a IS combinou a crítica radical da sociedade capitalista — mais especialmente a crítica da sociedade capitalista da superabundância de mercadorias, representada pelo Estado de bem-estar social europeu, e de suas bases de sustentação, enraizadas nos processos colonialistas — com experimentações estéticas herdadas do dadaísmo e do surrealismo, propondo a superação da produção artística como esfera alienada da vida social cotidiana. Seu objetivo não era produzir obras de arte, mas transformar a própria existência cotidiana por meio da construção de “situações” — momentos de construção coletiva de ações situadas capazes de romper a passividade imposta por aquilo que Debord, em 1967, enquadraria como a Sociedade do Espetáculo.


Raoul Vaneigem foi um escritor e filósofo belga e um dos principais articuladores da Internacional Situacionista durante a década de 1960. Raoul foi responsável pela escrita de A arte de viver para as futuras gerações (Editora Veneta, 2016), um dos três textos mais basilares da IS ao lado de A sociedade do espetáculo (Editora Contraponto, 1997), de Guy Debord, e Sobre a miséria do meio estudantil (GLAC Edições, 2026), de Mustapha Khayati. Além de sua obra mais proeminente, Vaneigem também é conhecido por seus textos em conjunto com a IS e por seus livros, como El movimiento del libre espíritu (Traficantes de Sueños, 2023).


Gérard Berréby, nascido em 1950 em Thala, na Tunísia, é um editor e escritor francês, fundador da editora Allia, criada em 1982.





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