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AO LEVANTE CONTRA O BESTIALISMO - Antonio Martinelli



Legítima Defesa

Quantos minutos um frango vive sem cabeça? / A violência lá de fora / toma de assalto / [agora] / o quarto da filha / a sala de casa / os cômodos apertados / Portas abertas / muita intimidade / pouco respeito / carícias roubadas. / Um roçar de corpos / violento pai patrão / violento cotidiano forçado. A mulher talhada / fatia na cozinha/ o abuso da filha/ o geme-chora / menina envergonhada / medo da mãe / o chora - geme / inconformada. / ["Olha a soberba dele / e descarrega tua ira / em sua cabeça!"] A garrafa esvaziada de cachaça / a cabeça vazia / abusador faz da casa: oficina do diabo / Macho mergulhado no álcool / O monstro não está somente lá fora! / Se pôs dentro de casa: e oprime / e viola / e bate / e bulina / e agride/ e abusa/ e estupra / [e o choro engasga, asfixia] Se acha o dono do barraco / se acha o dono do sobrado / se acha / o dono da casa/ se acha / o dono do bairro / o patriarca, o dono do mundo. A mãe pega a faca / é tanta dor afiada / é tanto nojo / Asco / No pé da cama / diante dos corpos / ora: / ["Olhai agora / o que vão fazer / minhas mãos / a fim de que / segundo minha promessa / levantarei: / uma nova cidade, um novo país, uma nova civilização / e eu realize / o que acredito / ser possível, graças a nós, mulheres"] / Nem pai, nem padrasto / segura o monstro / pelos cabelos/ inclina sua cabeça para trás / e com todo amor do mundo / com muito amor / passa a lamina afiada / desenhando / de fora a fora / um risco de libertação_________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ no pescoço do homem_____________________________________________________________

que decapitado____________________________________________________________________

estrebucha________________________________________________________________________

como frango______________________________________________________________________

moribundo________________________________________________________________________ _________________________________________________________________em fim de rinha. Na rua, mãe e filha / gritam / as benções de Judite / e exibem / a cabeça do bêbado, como Holofernes: / ["Somos livres / de toda a mancha / de todo pecado / e cheias de alegria / por nossa vitória / celebramos / nossa salvação / a libertação"] / A sirene toca / luzes azul e vermelho da polícia / iluminam vielas / rodiziando em círculo / enquanto mãe e filhas / dançam/ em roda / como Salomés.

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Fogo de Monturo

para Érika Mourão Trindade Dutra

Evocativo grito entalado / coragem / contra a vida áspera [quanto de dor cabe em milímetros cúbicos de ar?] Na terra dos livres / privaram o negro / de respirar roubaram-lhe / dignidade / trabalho / família / vida / ar, ofegante morte de mais um príncipe / mais um homem / um trabalhador / um pai mais um negro. [agora] Reascende / como em monturo / um fogo que arde / que começa por baixo - de Minnesota ao Mississipi – queimando a bandeira do Sul / estampada

com cruz azul / com estrelas / da Klan! Fogo de monturo / contra a genealogia da raiva contra brutalidade policial [ontem] O povo fez apagar / toda luz da Casa Branca Um poeta amigo meu / disse que o maior problema da Paz é que ela é branca, demais. Que mundo é esse / que sem estardalhaço / não se ouve? [hoje] A plenos pulmões / cada qual com sua mancha / os cílios da traqueia desafiam o velho mundo / empurram a sujeira do ar / desafiam a velha elite cada qual com sua nódoa [agora] Diferença se resolve na rua / roupa suja / cada qual com seu labéu vergonha se resolve na honra é chegado o tempo / da esperança estufar o peito [Não mais povo pisado!] [agora] Movimenta / em braço erguido de Pantera / viva a glória negra contra a força / contra a frota / tudo isso, se derrubará! [O teu sofrimento não é o meu sofrimento. Mas também sinto dor, tenho sumo vermelho e também sonho] Em punho cerrado de Pantera / viva a glória negra! novo século inicia agora não servem / agora não curvam / e se levantam / em vitoriada agora não esfregam / se levantam /agora não carregam / agora não escovam / se levantam São agora troncos embondeiros / o torço negro ojá protetor da moleira da fé / dreadlocks / turbantes agora não limpam [na terra dos livres, a exceção do negro é regida pela regra do branco] agora não lavam / agora não passam [verdade estorva!] o discurso branco [impropérios] do homem branco [racista] da Casa Branca teima chamar de agitação [mas agora, irmão] eclode rebenta explode / uma onda / contra a maquinaria / na rua da opressão. [de novo] cobram o ar roubado / por uma imprensa branca / cobram o ar roubado por uma polícia branca / cobram o ar roubado / por um poder branco cobram o ar roubado / por um sistema branco - formulado construído reforçado legitimado - por homens brancos: "Nascimento de uma Nação!" [agora] - costa a costa, leste oeste - chacoalha o hoje / rompe no amanhã: um povo de cabeça erguida / fogo e machado: é justiça de Oxum! / quase sem fumaça / esse fogo de monturo / não se via quando se viu / tomou corpo / e segue queimando / e vai pegando / e segue crescendo / e vai espalhando / força / calor / brilho fogo de monturo / tem um poder encoberto / não se controla / não precisa

nem rastilho. [basta um atrito, não sobra nada!] Na América / o povo negro toma a rua / encorajado / não mais coagido não mais assustado. [ah, a justiça tardia!] [ah, a justiça negada!] e a menina negra / esbraveja [ah, a justiça sonhada!] se depender, coragem / limpará / todo monturo de imoralidades dos homens brancos.

[eu torço para isso! vibram os miocárdios dos que ainda tem coração]

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A besta, a corja e o povo

para Inez Vianna

I. Este ser sem biografia, [mesmo os piores facínoras tiveram infâncias e fantasias?] sem álbum de fotografias, [psicopatas também amam?] Besta frívola, bronca, usa da publicidade tosca e cria sua própria mitomania [egóicos não vão à terapia?] Um fio de tesão por si, um onanista da autoimagem desfila jocoso frente nossa desgraça [ainda pergunto: narcisistas fogem de médicos, não fazem exames de rotina?] II. A ideologia carunchada da Besta, desfaz a Democracia em pó. O circo tosco, armado pela Besta, busca incendiar o país. Os absurdos impronunciáveis da Besta, os desavergonhados passeios dominicais da Besta, grunhindo virulências, cuspindo gotículas de Flügge sem piedade para sua plateia de olhos tapados. O quadrupede sem cabeça, passeia e pasta na Esplanada. III. Meia, meia, meia, acompanhado das crias [mandantes de assassínios, tiranicidas, genocidas] o 666, e atrás: sua corja de deambulantes - aqueles que escolheram pelo caminho dos covardes - seguem em marcha fúnebre, em ato incivil, e bradam a inconstitucionalidade, torturante, a morte prematura, em submissão pornográfica... Seguidores da Besta, gritam, esbravejam, apontam suas armas de brinquedo. Ah, os mantenedores da autarquia, que dilaceram nosso país, os aduladores do dinheiro, [homens que dormem em camas feitas de papel moeda] e que exploram nosso país, os contrabandistas da mentira [replicadas inverdades]

que confundem nosso país, os propagadores da violência, [que rondam no escura da noite como predadores] e desorganizam, ameaçam, abalam nosso país, com seus desejos inatos de destruição. IV. Larápios da coerção, seguem míopes, tempestivos, impulsivamente urram a normalidade [Só não se esqueçam: não são somente os mortos que conhecem a guerra!] Eu pensei que fosse me acostumar, mas sigo alquebrado [Quem juntará meus pedaços?] Ainda dói ver aqueles que a Besta chama de "povo" - mas que são corja - amontoados em carros de som conclamando: uma loucura antiga, [hoje, diante da peste] promovem micaretas, crentes aos céus, [mas que deus é esse?] em que creem essa gente? [bispos e pastores pedindo ao firmamento uma tempestade de gafanhotos que os façam felizes?] Munidos de armas, gritam a pisada esmagadora dos coturnos. [ - Seguidores da Besta: teriam coragem de amarrar uma ancora no pescoço e pular no pântano para salvá-lo?] V. São céticos ou acéfalos, os insatisfeitos com o passado? Reproduzem o velho vestido de novo. [Em política: há vícios sem consequências?] Presas da demagogia agora mostram os dentes, em aglomerados, atos [Eu mantenho os olhos fixos no meu tempo e, trancado, assisto a carnificina] O que era iminência de crueldade se concretizou na simples estratégia: combater com pá de cal a ciência, suprimir a verdade, propagar a mentira, plantar a erva daninha da dúvida [água tônica e água benta, não são remédios pra peste!] Pátria acima de todos! E ainda ousam se autoproclamar povo? VI. O povo é complexo, mesmo na aparente subordinação, o povo é ambíguo, mesmo no silêncio paciente, o povo é contraditório, mesmo inclinado ao desespero. Parece que não irá aguentar o peso da vida... Mas logo se equilibra e mesmo que os ombros se encurvem, não sucumbe. Bota o mundo nas costas. É amparo de famílias, luta contra a morte: seja bala, seja peste, seja fome. O povo é sertão, terreiro, aldeia, caatinga, favela, campo, lixão, morro, rua, floresta, quarto de despejo - antes de tudo: um forte - resiliente e bravo é meu povo! Escreve realidades práticas, humanidade ambiciosa. Come para existir, sobrevive para lutar, e peleja, batalha, briga, antes de morrer. Encara para estudar, aguenta para aprender, e descobre, conhece, entende, antes de morrer. Assimila para trabalhar, entrega para somar, e lida, come, cuida, divide, e compartilha, resiste, labuta, antes de morrer. Antes de findar, meu povo sonha!, Mesmo na miséria, canta, elabora, trama, tece, cura, dança, cria... O Povo, esse os inventor de histórias, carimbamba de línguas! Sempre na pujança sagrada, no rebento rebolar de inícios e começos, xamânico estado de graça! VII. [se todas as fortunas são imorais]

Qual a responsabilidade do privilegiado face à rebentação? Matar a fome! Qual o papel do artista diante do medo? Cantar a esperança.

[Afinal, somado aos seus desejos, o caráter de um homem é forjado pela dor, e moldado por seus

sonhos, utopia!]

Qual a responsabilidade do coveiro face ao finamento? Enterrar os mortos. Qual a responsabilidade de cada um de nós face ao terror? Salvar vidas.

[Não sendo isso, tombaremos!]




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Antonio Martinelli é jornalista, poeta e gestor cultural. Autor de Tetralogia da Peste [dois tempos, uma cidade], publicado recentemente pela n-1 edições. Desde 2005, trabalha no SESC São Paulo. Foi curador e coordenador do projeto "Brasil, país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt", em 2013, na Alemanha. Trabalhou na Revista Caros Amigos e participou de júris e comissões nas áreas de dramaturgia, bibliotecas e literatura.


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Nota da edição Todas as imagens que acompanham a trilogia de poemas de Antonio Martinelli neste post foram concebidas pela artista Pedro Andrada. Elas são recortes dos exercícios do projeto gráfico do poster que acompanhará a série de quatro livros Câmara Hermética, qual a GLAC edições lançará nos próximos dois meses (agosto e setembro). Serão textos que apresentam olhares outros com a pandemia mundial de Covid-19. Aguarde!


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Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras pela por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com



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