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A MEDICINA COMO RELIGIÃO - Giorgio Agamben

Atualizado: Jul 10


Legenda: Pacientes sendo submetidos ao tratamento conhecido como "pulmão de aço". Inventado nos Estados Unidos em 1928, os pulmões de aço estavam entre as primeiras máquinas de suporte à vida. Ela consiste basicamente em uma câmara hermeticamente fechada, conectada a uma bomba de ar, sem conexão alguma com a exterioridade. A máquina foi originalmente concebida para ajudar as vítimas da inalação de gases tóxicos no pós guerra. Mais tarde, os pulmões de aço também se tornaram famosos por manterem vivos os pacientes de poliomielite. O pulmão de aço ajuda o paciente a respirar por meio de pressões negativas, as quais sugam o ar para fora da câmara, fazendo com que os pulmões do paciente expandam e assim funcionem conforme sua fisiologia. Muitos pacientes de poliomielite se recuperaram, outros, porém, passaram o resto de suas vidas dentro da máquina. Ainda hoje há pacientes que usam pulmões de aço para se manterem vivos. Sempre que o filósofo italiano Agamben publica um texto inédito no Quodlibet, seu atual canal de comunicação com o mundo, desde que a pandemia começou, receamos em ler, traduzir e publicar. Porém, ontem de noite o nosso amigo Davi De Conti nos enviou a tradução deste, que foi publicado originalmente pela manhã de 02.05, pelo próprio autor. Ao terminarmos de ler, pensamos "é hora de dar vazão a um pensamento negativo que nesse momento também pode trazer implicações críticas ao contexto, que não somente nega a realidade dos fatos dessa pandemia como Agamben vem fazendo, mas aponta ao pré e ao pós de seu acontecimento".

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Que a ciência tenha se tornado a religião de nosso tempo, aquilo em que os homens acreditam crer, é há muito tempo evidente. No Ocidente moderno conviveram e em certa medida ainda convivem três grandes sistemas de crença: o cristianismo, o capitalismo e a ciência. Na história da modernidade, essas três “religiões” se cruzaram necessariamente em diversas ocasiões, entrando por vezes em conflito e em seguida se reconciliando de diversos modos, até alcançarem progressivamente uma espécie de pacífica, articulada convivência, quando não uma verdadeira e peculiar colaboração em nome do interesse comum.

O fato novo é que entre a ciência e as outras duas religiões se reacendeu, sem que o notássemos, um conflito subterrâneo e implacável, cujos resultados vitoriosos para a ciência estão hoje diante de nossos olhos e determinam de maneira inaudita todos os aspectos de nossa existência. Esse conflito não diz respeito, como no passado, à teoria e aos princípios gerais, mas, por assim dizer, à práxis cultual. Também a ciência, de fato, como qualquer religião, conhece formas e níveis diversos por meio dos quais organiza e ordena a própria estrutura: à elaboração de uma dogmática sutil e rigorosa corresponde na prática uma esfera cultual extremamente ampla e capilar que coincide com o que chamamos tecnologia.

Não surpreende que o protagonista dessa nova guerra de religião seja aquela parte da ciência em que a dogmática é menos rigorosa e mais forte o aspecto prático: a medicina, cujo objeto imediato é o corpo vivente dos seres humanos. Tentemos estabelecer os traços essenciais dessa fé vitoriosa com a qual cada vez mais teremos de acertar as contas.


1) O primeiro atributo é que a medicina, como o capitalismo, não necessita de uma dogmática especial, mas se limita a tomar emprestado da biologia os seus conceitos fundamentais. Diferentemente da biologia, contudo, articula esses conceitos em um sentido gnóstico-maniqueísta, quer dizer, conforme uma exasperada oposição dualista. Existe um deus ou um princípio maligno, a doença, sem dúvida, cujos agentes específicos são as bactérias e os vírus, e um deus ou um princípio benéfico, que não é a saúde, mas a cura, cujos agentes cultuais são os médicos e a terapia. Como em toda fé gnóstica, os dois princípios são claramente separados, mas na prática podem contaminar-se, e o princípio benéfico e o médico que o representa podem enganar-se e sem se dar conta colaborar com o inimigo, sem que isso invalide de algum modo a realidade do dualismo e a necessidade do culto por meio do qual o princípio benéfico combate a sua batalha. E é significativo que os teólogos que devem estabelecer a estratégia sejam os representantes de uma ciência, a virologia, que não possui um lugar próprio, mas se situa na fronteira entre a biologia e a medicina.


2) Se essa prática cultual foi até agora, como qualquer liturgia, episódica e limitada no tempo, o fenômeno inesperado a que estamos testemunhando é que ela se tornou permanente e onipresente. Não se trata mais de tomar remédios ou de se submeter quando necessário a uma consulta médica ou a uma intervenção cirúrgica: toda a vida do ser humano deve tornar-se a todo instante o lugar de uma ininterrupta celebração cultual. O inimigo, o vírus, está sempre presente e deve ser combatido incessantemente e sem trégua. Também a religião cristã conhecia tendências totalitárias similares, mas elas diziam respeito apenas a alguns indivíduos - em particular os monges - que escolheram colocar sua inteira existência sob a bandeira "orai incessantemente". A medicina como religião acolhe esse preceito paulino e ao mesmo tempo o subverte: onde os monges se reuniam no convento para orarem juntos, a adoração deveria agora ser praticada com a mesma assiduidade, mas mantendo-se separados e a distância.


3) A prática cultual não é mais livre e voluntária, exposta apenas a sanções de ordem espiritual, mas deve tornar-se normativamente obrigatória. O conluio entre religião e poder profano certamente não é um fato novo; totalmente novo é, porém, que não mais se refira, como era o caso para as heresias, à profissão de dogmas, mas exclusivamente à celebração do culto. O poder profano deve estar atento para que a liturgia da religião médica, que coincide agora com toda a vida, seja pontualmente observada nos fatos. Que se trate aqui de uma prática cultual e não de uma exigência científica racional é imediatamente evidente. As doenças cardiovasculares são de longe a causa mais frequente de mortalidade em nosso país e se sabe que elas podem diminuir se um estilo de vida mais saudável for adotado e se uma dieta específica for seguida. Mas nenhum médico jamais pensou que essa forma de vida e nutrição, que eles aconselhavam aos pacientes, passaria a ser objeto de uma normativa jurídica, que decretaria ex lege o que se deve comer e como se deve viver, transformando toda a existência em uma obrigação sanitária. Exatamente isso foi feito e, ao menos por ora, as pessoas, como se fosse óbvio, aceitaram renunciar à própria liberdade de movimento, ao trabalho, às amizades, aos amores, às relações sociais, às próprias convicções religiosas e políticas.

Avalia-se aqui como as duas outras religiões do Ocidente, a religião de Cristo e a religião do dinheiro, cederam o primado, aparentemente sem combaterem, à medicina e à ciência. A Igreja renegou seus princípios pura e simplesmente, esquecendo que o santo cujo nome o atual pontífice adotou abraçava os leprosos, que uma das obras de misericórdia era visitar os enfermos, que o sacramento só se pode administrar presencialmente. O capitalismo por sua vez, embora com alguns protestos, aceitou uma perda de produtividade que nunca ousara considerar, esperando provavelmente alcançar mais tarde um acordo com a nova religião, que neste ponto parece disposta a transigir.


4) A religião médica tomou sem reservas do cristianismo a instância escatológica que este deixara cair. Já o capitalismo, secularizando o paradigma teológico da salvação, havia eliminado a ideia de um fim dos tempos, substituindo-a por um estado de crise permanente, sem redenção ou fim. Krisis é originalmente um conceito médico, que designava no corpus hipocrático o momento em que o médico decidia se o paciente sobreviveria à doença. Os teólogos adotaram o termo para indicar o julgamento final que ocorre no último dia. Se se observa o estado de exceção em que estamos vivendo, dir-se-ia que a religião médica conjuga a crise perpétua do capitalismo com a ideia cristã de um tempo final, de um eschaton em que a decisão extrema está sempre em curso e chega ao mesmo tempo precipitada e atrasada, numa tentativa incessante de poder governá-la, sem contudo resolvê-la de uma vez por todas. É a religião de um mundo que se sente derradeiro e ainda não é capaz, como o médico hipocrático, de decidir se sobreviverá ou morrerá.


5) Como o capitalismo e diferentemente do cristianismo a religião médica não oferece perspectivas de salvação e redenção. Pelo contrário, a cura que busca só pode ser temporária, uma vez que o Deus maligno, o vírus, não pode ser eliminado de uma vez por todas, em verdade muda constantemente e assume sempre novas formas, presumivelmente mais perigosas. A epidemia, como sugere a etimologia do termo (demos é em grego o povo como corpo político e polemos epidemios é em Homero o nome da guerra civil) é acima de tudo um conceito político, que se prepara para tornar-se o novo terreno da política – ou da não política – mundial. É mesmo possível que a epidemia que estamos enfrentando seja a realização da guerra civil mundial que, de acordo com os cientistas políticos mais atentos, tomou o lugar das guerras mundiais tradicionais. Todas as nações e povos estão agora em guerra duradoura consigo mesmos, porque o inimigo invisível e elusivo com o qual estão lutando está dentro de nós.


Legenda: antigo tratamento fisioterapêutico em crianças.

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Giorgio Agamben nos interessa em muitos casos, mas especificamente naqueles em que seus conceitos poder destituinte e estado de excessão se fazem articular em uma prática narrativa que engendra filosoficamente a destruição do mundo e a imaginação porvir. Davi De Conti nasceu em São Paulo e foi criado em Goiânia. De volta à terra da garoa, se tornou mestre em filosofia e agora se encontra confinado no Jaguaré.

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Nota

Este texto foi publicado originalmente aqui.



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