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SUPLEMENTO ANTICAPITALISTA DE UM PROFESSOR EM QUARENTENA (1ª sem.) - Fábio Moura

Atualizado: Jul 10



O professor de filosofia Fábio José Porfírio Moura publica todo santo dia, desde quando iniciou sua quarentena em 18 de março, em seu perfil do facebook, reflexões ácidas sobre os acontecimentos da burocracia estatal capitalista brasileira e, ao mesmo tempo, mensagens críticas e esperançosas à população desassistida. Não se encontrará aqui um diário comum do cotidiano de um sujeito que até pouco ministrava aulas filosóficas a adolescentes e trabalhava na terra junto de sua família mas agora está enclausurado. Pelo contrário, é esclarecedor que, ao ler suas longas linhas, o momento lhe faz indagar profundamente tanto sua espiritualidade cristã como o comum senso negativo ao Estado, ao Kapital e à nova ordem estabelecida pela crise pandêmica. Como estamos atrasados, nos próximos dias publicaremos as três primeiras semanas de suas divagações, e posteriormente elas serão publicadas semanalmente.

_ 1° dia de quarentena Rio Pomba (MG), 18 de março de 2020


As contradições do sistema capitalista neoliberal começam a se manifestar. A máscara do pequeno burguês, do dono do mercadinho, da oficina mecânica, do salão de beleza, dos microempreendedores individuais, enfim, do trabalhador abastado que, por ter conquistado uma bela casa, um carro importado e uma empresa com dez empregados e que por isso pensa que é rico, começa a cair e ele começa a se dar conta de que não é um capitalista como tanto se iludiu.


Defenderam o Estado Mínimo sem saber o que isso significa. Defenderam reformas e privatizações de todos os serviços, inclusive do SUS, como se isso pudesse beneficiá-los. Acreditaram nos discursos dos ricos por se iludirem em não serem pobres. São pobres. Por mais abastada que uma pessoa seja, por mais confortável que seja sua vida, se tem de trabalhar todos os dias para manter seu conforto, é pobre, por mais que doa a verdade.


O que acontecerá com o pequeno comerciante se essa crise de saúde pública perdurar? Quanto tempo ele conseguirá manter suas despesas, aluguel, impostos, salários se for comprometido o abastecimento e a ruas estiverem vazias?

Como sobreviverá se se cumprir as "promessas" de Paulo Guedes de um Mercado Livre, auto regulável e sem a interferência do Estado na economia?

Até os países mais desenvolvidos e pioneiros do neoliberalismo como Inglaterra, França e Alemanha voltaram atrás em suas políticas e estão restabelecendo políticas do antigo Estado de Bem-Estar Social para salvar suas economias. Isentando impostos e contas básicas como Luz e aluguel, injetando dinheiro e baixando juros para não provocarem o caos e a desordem social.

Neoliberalismo, Estado Mínimo, Livre Mercado, Privatizações, são vantajosos só para banqueiros, empresas multinacionais, grandes latifundiários e especuladores financeiros. Pequeno empresário também é trabalhador e, neste momento está mais assustado que seus empregados. Sem a interferência do Estado na economia ele quebrará e estará em situação tão ou mais lamentável que seus empregados demitidos.

Ninguém imaginava que um vírus de gripe pudesse conter tantas lições. É hora de baixar a guarda, superar a arrogância, reconhecer o erro, abrir a mente e defender nossas vidas, nossas empresas, nossos empregos, nossos direitos.

Todas as vidas importam, mais do que nossas posses. Por isso precisamos do SUS, só ele pode atender nossos enfermos. Precisamos defender a Ciência e a Universidade Pública, só ela pode encontrar vacina e cura para nossas doenças. Precisamos pensar solidariamente, pois dependemos uns dos outros e ninguém é melhor que ninguém. Precisamos, sobretudo, deixar de sermos alienados e entender que essa crise também é política, para no futuro, nunca mais elegermos retardados inconsequentes.

Que Deus perdoe nossos pecados e nos devolva o quanto antes a nossa tranquilidade. Mantenhamos a serenidade, a consciência, a distância emergencial e isolamento voluntário. Aproveitem e leiam bons livros, façam cursos online, escrevam um diário e protejam os velhinhos. Respeitemos as normas de segurança que muito em breve isso passará e o abraço voltará a ser livre.


Que Deus nos proteja.


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2° dia de quarentena Rio Pomba (MG), 19 de março de 2020


Por conta da pandemia, parece que o desespero tem tomado conta da vida de muitas pessoas, mesmo entre aqueles que, por força do direito, que deve ser estendido à todos, estão respeitando o isolamento. A situação é de fato desesperadora, mas o isolamento pode ser muito mais benéfico do que simplesmente a preservação da saúde pública, é uma necessidade humana e pré-requisito para a reflexão, que a vida conturbada dos tempos modernos não nos permite ter e que, neste momento, a natureza exige de cada um de nós. Oportunidade de pensar e se auto-conhecer.


Entendo que algumas pessoas se sintam presas e oprimidas por não poderem sair às ruas, que outras se sintam ansiosas com as contas que não poderão pagar, assim como dos que são forçados a sair e trabalhar, não apenas para a manutenção do emprego, mas por dever ético com a sociedade.


Sem ter o que fazer em casa muita gente tem ficado presa em frente da TV e do celular, acompanhando o jornalismo em tempo real, com todo sensacionalismo midiático e, não tenho dúvida, isso só aumenta a ansiedade, o desespero. Melhor assistir desenho com as crianças.


Melhor ainda abrir um livro. Tenho visto o desespero de fiéis que estão privados dos seus cultos propagando o fim do mundo, como castigo de Deus aos infiéis da Terra. Infelizmente, muitos religiosos preferem a igreja do que Deus. Não entendem que religião, do latim religare, é uma ligação que existe do indivíduo com o sagrado. É vínculo individual do ser humano com o Sagrado.


Que oportunidade maravilhosa para o cristão que busca conhecer seu Deus e despertar sua espiritualidade poder ficar em isolamento. É quaresma, por sinal. Oportunidade de ler os evangelhos e refletir por conta própria sua condição espiritual. De se autoconhecer e reconhecer o Espírito Santo dentro de si, enquanto se livra da dependência psicológica de igreja. Perceberá que Deus não habita prédios, capelas e nem delega intermediários entre nós e Ele. Tem gente que vai para a igreja e volta com o diabo no corpo. Celestialize seu lar, procure Deus dentro de si, talvez seja isso que Ele está nos pedindo.


Há muito o que fazer dentro de casa, começando por uma faxina, já que toda higiene é pouca contra esse vírus. Vamos cuidar do Jardim, aprender artesanato, plantar vasos, pintar as paredes, cozinhar em família, escrever poesia, desenhar, jogar xadrez e outros games, contar estórias e ensinar brincadeiras de nossa infância para as crianças, tocar violão e cantar na janela para alegrar os vizinhos, fazer meditação, ioga, oração, escrever um livro.


Mas vamos ficar em casa, nos mantendo informados sim, mas sem exagero e mantendo nossos parentes informados das coisas maravilhosas que podemos fazer sozinhos. As redes sociais nunca foram tão úteis ao ser humano como nestes dias de separações e isolamento. É a aproximação social de quem deve manter uma distância física, apenas.


Ocupações criativas, lúdicas e afetivas que podemos fazer dentro de casa, além de terapêuticas e desenvolver nossos talentos, podem abrir novas perspectivas de trabalho depois que isso tudo passar. Precisaremos disso, não se iludam. Mesmo que mantenhamos nossos empregos, teremos necessidade de aumentar nosso rendimento porque a economia quebrará.


É necessário o isolamento, é para o bem comum, mas não é um mal em si mesmo. Que o façamos por amor, solidariedade e que possamos tirar dessa crise o máximo de benefícios. Sem desespero. Nossa saúde mental e emocional também são importantes.

Cuidem-se todos.

O dia do abraço não tardará.


Legenda: Cumprindo à risca a quarentena, produzindo minhas memórias póstumas, no cantinho mais charmoso do meu lar.


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3° dia de quarentena Rio Pomba (MG), 20 de março


Quando cheguei em Rio Pomba, na Zona da Mata mineira, em 2015, fiquei encantado e seduzido pela vida simples e descomplicada que eu procurava fazia anos. Construções antigas, comida no fogão à lenha, cachaça boa e barata e um povo acolhedor como nunca havia visto.


Morar na roça foi uma atitude radical para quem viveu a maior parte da vida na grande metrópole, mas um período de imenso aprendizado e paz de espírito. Buscávamos qualidade de vida e, embora ainda busquemos, vivemos muito melhor hoje do que cinco anos atrás, mesmo com um rendimento financeiro menor.


Da periferia de onde venho, uma pessoa que passa dos cinquenta anos é considerada velha e acumula doenças da velhice. Aqui vemos uma longevidade lúcida e produtiva inimaginável para quem vive em São Paulo. É uma cidade de velhos ativos, felizes e bem cuidados, o que me seduziu mais que tudo. Quero envelhecer assim.


É muito comum ver pessoas com mais de oitenta anos pedalando suas bicicletas barra-forte e atrapalhando o trânsito. Muitos ainda trabalham. Eles estão por toda parte, nas esquinas cuidando da vida alheia, nos bares, igrejas, nos forrós, na feira e nas praças. Adoradores da boa prosa, passam horas contando histórias e eu, sedento de conhecimento, adoro prosear com eles. É um patrimônio deste município, o mais valioso de todos e que agora está seriamente ameaçado.


Manter essas pessoas dentro de casa parece uma missão impossível, são pior do que crianças. Aliás, as crianças estão respeitando o isolamento e muitos dos meus alunos estão em guerra com seus avós desobedientes. A gente passa pelas ruas e, embora o comércio ainda esteja funcionando, o movimento das lojas caiu drasticamente. Nas ruas, só os mais velhos, quem mais deveria estar em casa.


Ontem a polícia teve de enquadrar os meliantes na praça , confiscar seus baralhos e manda-los para casa. Ficaram bravos e continuaram rodeando a praça para ver se os meganhas iam embora. As mesinhas da praça tiveram de ser interditadas. Um deles me disse que é bobagem tudo isso, que o vírus nem chegou aqui ainda. O objetivo do isolamento é esse mesmo, manter o vírus longe daqui. A situação é muito séria e, embora esse comportamento pareça engraçado, nossos velhos correm enorme perigo.


Às vezes penso que serão necessárias medidas mais enérgicas para preservar a vida dessas pessoas que carregam consigo toda a história desta gente, deste patrimônio vivo da coletividade. Espero que possamos convencê-los com todo amor, afeto e respeito que eles merecem, mas temos de mantê-los em segurança até que o pior passe.


Quando tudo isso passar, quero ir ao forró e vê-los todos lá dançando a noite toda, com a mesma energia, alegria e bom humor que eles sempre esbanjaram. Essa é uma cidade de velhos, seus valores são a base ética deste município, não podemos perdê-los.


Por fim, que possamos atende-los em todas as suas necessidades, indo às compras quando preciso, prestando serviços de rua e sempre mantendo uma distância segura para não contamina-los. Não visitá-los, nesse momento, é um ato de amor que em breve será recompensado.


O dia do abraço não tardará.


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4° dia de quarentena Rio Pomba, 21 de março


Hoje foi um sábado sem feira, sem moda de viola, sem as pessoas comendo pastel com caldo de cana. Faltou o encontro semanal de amigos que falam alto, se abraçam e riem das mais fúteis banalidades. Um sábado sem feira nem parece sábado. Mas não podia ser de outra forma.


Para os que trabalham na feira, produtores rurais e consumidores, mais um dia de susto e profundas preocupações. Como ficar sem alimentos básicos em nossa mesa? O que fazer com o produto colhido se não for consumido? Como pagar as contas de quem vive da roça e depende da feira?


A Rede Mãos à Horta, originalmente um projeto de extensão do curso de Agroecologia do IF de Rio Pomba, que hoje está construindo sua autonomia jurídica, desde 2014 vêm aproximando pessoas que buscam uma alimentação saudável, dos produtores que rejeitam o uso de veneno em suas lavouras, numa relação sem intermediários. A Rede Mãos à Horta está todos os sábados na feira e, muito do que comercializa, são produtos antecipadamente encomendados de pessoas que conhecem este trabalho. É uma rede de aproximação de pessoas e não de simples troca comercial. Projeto tocado por pessoas que desejam muito mais do que dinheiro, mas que lutam por um mundo melhor.


Não houve feira, mas houve muito trabalho. Cinquenta cestas com alimentos frescos e saudáveis foram entregues hoje na residência de cada um de seus consumidores. Tudo encomendado virtualmente mobilizando, da noite para o dia, produtores e apoiadores num trabalho extremamente necessário.


Trabalho que continuou o sábado inteiro e envolveu sete pessoas (para não gerar aglomeração) para selecionar, embalar, higienizar e distribuir, com um único carro, cada uma das encomendas. Todos conscientes da emergência deste trabalho e do papel que a agroecologia e a agricultura familiar desempenham, não só nesse momento de crise, mas no dia a dia da vida de cada um de nós.


Em sábados comuns, ao meio dia desmonta-se a banca, fecha-se o caixa, distribui-se a parte que cabe a cada produtor e doa-se o excedente de alimentos para entidades filantrópicas. De tarde folga para todos. Hoje, a última entrega foi depois das seis da tarde. Mas todos foram atendidos. Um sacrifício louvável e assustador para manter cada um de nós dentro de casa e diminuir o fluxo de pessoas nas ruas.


O abastecimento foi mantido, o rendimento do produtor também. Tudo feito às pressas e quase de improviso. Pessoas envolvidas desde a roça até a cidade numa rede de solidariedade, num esforço conjunto para garantir a saúde de todos.


Os próximos dias não serão nada fácies, já não está sendo. Tenhamos, então, consciência do esforço de tantos guerreiros e guerreiras que saem todos os dias de suas casas para não deixar ainda pior nossas vidas. Evitemos o consumo desnecessário tanto quanto sair de casa. Evitemos produzir lixo, facilitemos o trabalho alheio e compremos (por telefone, internet ou WhatsApp) do comércio do bairro ou direto do produtor. Quanto menos pessoas nas ruas, menor o número de infectados. Quanto menor o caminho para o entregador percorrer ou nós mesmos buscarmos algum produto estritamente necessário, menor a chance de adoecimento.


Que o trabalho que presenciei hoje, envolvendo a Rede Mãos à Horta de Rio Pomba, seja mais um exemplo e que se espalhe, junto de sua ideia para a construção de um mundo mais humano e solidário que essa pandemia agora exige de nós. Não vejo a hora de tudo isso passar e poder abraça-los em agradecimento.


Me representam.



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5° dia de quarentena Rio Pomba, 22 de março


Com o avanço assustador da pandemia entre nós, parte significativa da população, de alguns governantes, pequenos e grandes empresários, parecem ainda não ter entendido o recado dado pela natureza. O medo da maioria de nós não é pela contaminação nem mesmo com o risco real de morte. As pessoas estão com medo de perder o emprego, de fechar seus negócios e demitir funcionários, estão com medo de não poderem pagar suas contas, de serem despejadas de suas casas, de ficarem sem água, luz e gás por falta de pagamento. Estão com medo de não terem o que comer.


Trabalhadores já estão sendo demitidos de seus empregos, em poucos dias muitas lojas terão falido, trabalhadores informais, que trabalham de dia para comer de noite, nessa mesma noite não terão o que jantar. Não estamos apenas isolados, estamos nos sentindo sozinhos, abandonados. Estar sem dinheiro no mundo capitalista é a maior tragédia que pode existir, maior que a morte.


Não podemos confiar que o Estado resolva o problema, ele nunca resolve. Nem o Mercado construirá hospitais, o Mercado não se importa com pessoas, apenas com lucro. Não é hora de se pensar em dinheiro. Dinheiro a gente ganha, a gente gasta, a gente perde e tem quem até se recupere financeiramente depois de perder tudo. Se perdemos nossas vidas, porém, dinheiro nenhum nos trará de volta.


Há serviços que são essenciais para a manutenção de nossas vidas. Precisamos que médicos trabalhem, enfermeiras, o pessoal que garante a limpeza dos hospitais, que transportam mercadorias essenciais, dos agricultores e pecuaristas, do coletor de lixo. Imagina se não houver coleta de lixo?


São muitas as pessoas, porém, que estão arriscando suas vidas e de seus familiares saindo para trabalhar apenas por causa do dinheiro, com medo de dividas, em trabalhos desnecessários em momentos como este, arriscando a vida, inclusive, daqueles que realmente precisam trabalhar. Se essa pandemia durar seis meses todos os brasileiros estarão endividados. A sociedade estará nivelada por baixo. Seremos todos devedores e ninguém terá condições de pagar suas dívidas, nem de cobra-las.


Vamos todos morrer de fome, então? A natureza não permitiria isso. Nem a natureza humana. Mas somos seres culturais, educados dentro de um sistema predador que prega a máxima de que é "cada um por si e Deus contra todos". Aprendemos a ser competitivos e que somos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso numa realidade que não dá oportunidades a todos. Por isso temos mais medo do desemprego que da morte.


A nossa natureza mesmo é outra. Somos seres sociais, coletivos, dependentes uns dos outros. Nossa natureza íntima é solidária. Dinheiro não é a nossa essência, se fosse, quem é rico viveria para sempre. Temos de recuperar nossa natureza. Nossa economia não vai sobreviver a essa pandemia. Quando todos estiverem quebrados, quem poderá comprar as mandiocas que eu planto? O que farei com elas? Jogar fora ou alimentar meu próximo que está faminto?


A natureza nos convida a repensar as nossas prioridades, a refletir sobre o sentido de nossa existência, a restaurar nosso equilíbrio, nosso afeto, empatia e compaixão com nossos semelhantes, nos convida a reinventar a vida. Uma onda de solidariedade tem se estendido pela Terra nesse instante, pessoas têm deixado suas zonas de conforto para auxiliar outros mais necessitados, restaurando laços sociais que nos foi roubado pelo capitalismo, nos mostrando que só nós mesmos podemos nos ajudar.


Respeitemos a natureza, ela é muito mais sábia e poderosa que o Mercado, o Estado e até mesmo a Ciência. Fiquem em casa, deixem as dívidas de lado por enquanto, ninguém será processado por isso, economizem nos gastos, diminuam a produção de lixo, aproveitem esses dias para estudar, se aperfeiçoar, aprender algum trabalho que possa gerar alguma renda quando tudo isso passar. Plantem seu próprio alimento, mesmo que seja em vasos na janela e, se puder, socorram os necessitados.


Temos muito que aprender nessa hora, que aprendamos a ser melhores. Espero que muito em breve estejamos todos juntos novamente, vivos, saudáveis, com mais humanidade e menor necessidade de dinheiro.


_ 6° dia de quarentena Rio Pomba, 23 de março


Parece que o apocalipse zumbi foi decretado hoje pelo presidente da República. Preocupado apenas em agradar empresas estrangeiras, em favorecer banqueiros e especuladores financeiros, ele acelera agora seu principal fetiche: exterminar com os pobres.


Decreta o presidente que as empresas privadas possam dispensar seus empregados por quatro meses sem remuneração. Tudo negociado, é claro, entre patrão e empregado. A reforma trabalhista que diminui a atuação dos sindicatos e acaba com os acordos coletivos, que foi comemorada por muitos trabalhadores, agora mostra para todos nós e, com muita clareza, porque ela foi redigida e aprovada.


Ontem mesmo eu comentava que não se pode confiar no Estado, mas esse governo extrapola qualquer nível confiança. Para quem chegou a dizer que só com trinta mil mortos o Brasil iria para frente, até o fim do ano serão pelo menos um milhão. Isso pela pandemia, sem contar os famintos e os executados que tentarem saquear alguma loja quando a fome bater em suas portas. Ele deve estar ejaculando de tanto orgasmo com estes números.


Não demora muito para bancos e grandes lojas estarem 24 horas por dia vigiadas pelo próprio exército. Exército que deveria estar montando hospitais de campanha mas que será usado apenas para exterminar os famintos que, em menos de um mês, serão milhões. Enquanto o presidente decreta o genocídio de uma nação inteira, seu ministro da economia autoriza ajuda financeira para não quebrar duas grandes empresas aéreas entre outras gigantes de setores diversos que, agora com esse decreto maldito, usará o dinheiro para outros fins, porque elas dispensarão em massa seus empregados.


Empresas que não quebrariam mesmo que essa crise se entendesse por anos. Já o pequeno e médio empresário, vão segurar a bucha de uma brutalidade destas com seus poucos funcionários, sem garantia nenhuma de sua própria sobrevivência jurídica. Vai quebrar de qualquer forma.


Começo a acreditar que a pandemia de Corona Vírus será o menor dos nossos problemas. O isolamento será quebrado tão logo acabe os mantimentos e não pudermos mais comprar nada pelo telefone. A violência será generalizada quando isso começar e ninguém poderá dizer que a culpa foi do vírus. Atitudes irresponsáveis, como destes senhores que estão no poder e de quem os elegeu por analfabetismo político, tornará tudo que estamos enfrentando ainda pior.


Difícil manter a calma quando àqueles que deveriam resolver o problema, amenizar as consequências, só fazem atrapalhar e acelerar a catástrofe. É o interesse privado colocando toda uma nação em risco de vida. O Estado brasileiro e o grande Capital que o financia são mais perigosos para a saúde pública do que qualquer pandemia.


Que os trabalhadores da Terra acordem deste pesadelo de alienação política e, quando tiver de lutar, possa reconhecer quem é o inimigo. Do contrário, será pobre matando pobre na rua enquanto ricos e poderosos assistem de seus confortáveis camarotes nossa própria destruição.


Que Deus nos proteja.

Obs.: Cerca de uma hora após essa publicação, o presidente divulgou em suas redes sociais que revogará o artigo, do seu decreto de extermínio, que prevê a suspensão dos salários do trabalhador afastado. Mas continua sem apresentar uma medida protetiva, o que pode ser ainda pior com aumento de demissões e fechamento de empresas. Esse governo é uma verdadeira tragédia.


Legenda: alunas e alunos do 2° ano do ensino médio da EJA na Feira de Ciência da Escola Estadual Professor Jose Borges de Morais.


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7° dia de quarentena Rio Pomba (MG), 24 de março


Quem me conhece pessoalmente sabe que o confinamento dentro de casa não é um problema para mim. Sempre fui muito caseiro, gosto muito de ficar em casa, a maior parte das coisas que faço é dentro de casa, até mesmo ganhar dinheiro. É em casa que faço arte, horta, estudo e preparo minhas aulas. Mas não sou um completo antissocial, gosto de uma boa prosa, de olho no olho, com risos e abraços. Saio pouco de casa, mas há anos recebo frequentemente a visita de amigos, mesmo quando estava distante, na roça. Passamos horas conversando e, às vezes, até trabalhando.


Adoro o meu trabalho, o convívio em sala de aula com os mais jovens que me atualizam dos modismos acelerados da contemporaneidade. Em Minas, optei por menos aulas, o que garante mais tempo para meu isolamento diário, embora custe um salário menor que muitos dos meus colegas. Ainda assim, acho o máximo ser professor. Sou remunerado para fazer o que mais gosto, ler e conversar. Compartilhar com essa juventude linda as coisas maravilhosas que tenho aprendido, apresentá-los o pensamento imortal dos grandes filósofos e deixa-los com a pulga atrás da orelha com as contradições da realidade, tem sido para mim mais do que um trabalho, um prazer. Estou sentindo falta do barulho nos corredores e salas da escola. Sentindo falta das minhas crianças. Não sei quando e nem como será nosso retorno e me preocupo muito com cada pessoa que faz nossa escola funcionar. Todos são importantes e um só que venha a faltar, abalará todos nós.


Gosto muito também de sentar numa mesa de bar, pedir uma dose de cachaça, um litrão de cerveja, uma porção de torresmo e esquecer que sou professor. Gosto de jogar conversa fora. Também estou sentindo falta disso. E hoje completa apenas a primeira semana desta nova rotina que todos estamos envolvidos.


Ainda assim, penso que para mim será possível suportar sem tanto sofrimento esse período indeterminado de reclusão. Minha companheira, por exemplo, está quase pirando de não sair para rua e temo que muitos dos meus conhecidos possam sofrer aumento de depressão e ansiedade, além das milhões de pessoas deste enorme país que já sofrem restrições econômicas.


Por outro lado, penso que a natureza está dando uma enorme oportunidade de cura para essas doenças modernas provocadas pelo ritmo acelerado do capitalismo. Ninguém tem tempo para nada, estamos sempre atrasados neste mundo em que o tempo é dinheiro. Agora o tempo parou, momento que eu não posso estar com outro, portanto, terei de encarar a mim mesmo. E isso há de ser bom para todos.


Tenho escrito longos textos que não são aulas, são reflexões que escrevo em meus diários desde os 17 anos (estou com 47) e que, neste momento de pandemia, estou expondo publicamente. E aquela ideia que ninguém lê textão, está sendo contrariada para mim. Talvez, por não terem o que fazer, mas tenho visto até alunos preguiçosos lerem, curtirem, comentarem e compartilharem meus textos. Não demora muito para eles perceberem minha bipolaridade. Se é que já não perceberam. Estou tendo que aprender com essa tecnologia que se tornou a única forma de dizer que estou aqui, que continuo pensando neles, estudando, produzindo, refletindo.


Adoro escrever diário. É onde organizo meu próprio pensamento, onde exponho minhas angústias e sonhos, onde me revelo como realmente sou. Recomendo essa prática em quase todas as minhas aulas e, penso que, neste momento de parada no tempo, é a melhor terapia que alguém possa fazer. Ao final deste tenebroso período de restrições, será possível sair desta espécie de retiro espiritual muito mais fortalecidos, muito melhor resolvidos e capazes de nunca mais aceitarmos a anormalidade em que vivemos como natural, inevitável.


Fiquem em casa, mantenham limpos seus corpos e o ambientes em que vivem, escrevam, desenhem, inventem. Deixem a natureza se recuperar. Aproveite o tempo e conheça-te a ti mesmo.


Em breve, estaremos juntos novamente.



*


Fábio José Porfírio Moura nasceu na cidade de São Paulo no ano de 1972. Formou-se em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, EFLCH-UNIFESP, é professor efetivo do ensino médio na E.E. Professor José Borges de Morais, na cidade de Rio Pomba (MG) – onde mora com a família desde 2015. É artista plástico, diretor teatral, permacultor e escritor de diários desde 1990.

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