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EU NÃO SOU UM HERÓI: ATUAL REALIDADE DE UM ENFERMEIRO EM NY - KP Mendonza

Atualizado: Abr 27


Legenda: fotografia do autor Para iniciar a semana, nós publicamos a tradução – realizada por nossa amiga e colaboradora Mari Cavalcante – de um relato angustiado e verdadeiro de um jovem enfermeiro de Nova York (EUA), postado em seu próprio perfil no Facebook em 14 de abril. O encontramos por acompanhar o trabalho de Rob Wallace, biólogo socialista que tem produzido inúmeros artigos a respeito da atual epidemia. O enfermeiro KP Mendonza não somente nos emociona com seu texto, mas também esclarece-nos a contingência do problema da vida de quem não está e nunca esteve "preparado para morrer".

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Apresentação por Rob Wallace

Quando deixei a academia, acabei dando aulas particulares a um número surpreendente de enfermeiros para ajudar com aulas on-line, que eles de alguma forma espremiam entre as vidas domésticas e os turnos.


Ao longo de muitas horas revisando seus trabalhos e conversando, eles também me ensinaram.


Enfermagem NÃO é o que você pensa. Não se trata de prestar assistência a médicos. Antes de tudo, é um campo próprio, com uma história de orgulho e uma epistemologia inteiramente à parte.


Uma hospitalização bem-sucedida não tem a ver apenas com biologia e com a tecnologia encontrada nos remédios. É também, muitas vezes, predominantemente dependente da ergonomia do cuidado que os enfermeiros administram.


Por falta de uma maneira melhor de dizer isso, trata-se das práticas precisamente afinadas - rituais baseados na materialidade - guiando um paciente debilitado pela doença ao longo do caminho sinuoso rumo a algo que se pareça com bem-estar ou, quando tudo mais falha, a uma boa morte.


Como na agricultura, a industrialização (e monetização) da enfermagem transforma uma economia natural de ajudar um corpo a se curar em uma fábrica que Tayloriza muitas dessas etapas.


Não me entendam mal, a SARS-2 é uma desgraçada. É uma assassina. Não apenas por qualquer caso individual, mas como especuladora de números. Uma pequena porcentagem de mortos em um número muito grande de infectados ainda é um número grande. Não é uma doença que dura por dias ou semanas, mas meses e, estamos começando a descobrir, anos. E, portanto, exigirá todas as mãos na massa, de biólogos moleculares a políticos.


Mas é o fracasso cuidadosamente cultivado da medicina neoliberal - os números não batem com os números - que deixou as enfermeiras e enfermeiros segurando o saco com o cadáver.


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Eu não sou um herói. Eu não estou pronto para morrer.

por KP Mendonça


Aviso do autor: As palavras abaixo são minhas e refletem apenas meus pontos de vista e experiências como enfermeiro de UTI. Minha intenção é apenas expressar minhas experiências vividas até agora ao longo desta pandemia; minha intenção não é falar em nome do hospital em que estou empregado, nem é minha intenção deturpar as experiências de outros enfermeiros aqui da cidade. Falo apenas por mim e espero que minhas palavras ressoem em outras pessoas.

Ontem, considerei escrever um testamento.

Eu tenho 24 anos. Sou enfermeiro de UTI na cidade de Nova York. Minha saúde está boa neste momento, então não deveria ter razão para sequer pensar em escrever um testamento. Mas ontem me resignei ao fato de que minha probabilidade de morrer é estatisticamente mais plausível do que eu imaginava anteriormente.

Quando me formei em enfermagem em 2018, nunca pensei que esse seria o meu futuro com apenas dois anos no campo. Eu pensei que estava preparado para ver a morte; eu já tinha visto bastante no meu primeiro ano na UTI. No entanto, nas últimas duas semanas, vi mais pessoas morrerem do que a maioria das pessoas vê em toda a vida. Agora, não tenho mais tanta certeza se a morte é algo que estou preparado para ver.

A morte é diferente agora. A morte poderia me escolher.

Na semana passada, uma filha ligou perguntando sobre sua mãe. Ela achava que a condição de sua mãe era estável. Percebi que ninguém a havia atualizado; as coisas são muito diferentes agora que as famílias não são permitidas no hospital. Então, relutante, mas gentilmente, disse a ela que, se eu parasse o bombeamento intravenoso agora, sua mãe morreria. Eu tinha que ser franco - por que mentir ou tentar disfarçar o que está acontecendo? Incontrolavelmente e como esperado, ela começou a chorar.

Eu já tinha escutado pelo estetoscópio os sons de um coração que está morrendo. Mas nunca antes tinha ouvido um coração morrendo pelo telefone.

E eu fiquei ali constrangidamente segurando tudo o que precisava antes de entrar na sala, esperando não ter esquecido nada enquanto ela chorava ao telefone: medicamentos, tubos, frascos, agulhas, seringas... minha mente percorrendo o que preciso fazer enquanto também tenta ouvir o que ela pode ter a dizer.

Toda vez que você entra no quarto de um paciente de COVID, você se expõe, então eu digo a mim mesmo: "Qualquer coisa que você esqueça e que o force a voltar ao quarto é algo que pode matá-lo". Eu me esforço para me concentrar em ser humano enquanto estou parado no meio do corredor, sem saber o que dizer de volta, com minha máscara meio colocada e um fio de suor se formando sob as múltiplas camadas de EPI.

Como você se desculpa por não ser suficiente?

Me disseram que estou na linha de frente, mas a verdade é que sou o recurso final. Eu sou um dos poucos que são as últimas pessoas que você quer ver, porque depois de nós é a morte. Fora da pandemia, a proporção na UTI é de dois pacientes para um enfermeiro, no máximo. Agora, a expectativa é de três pacientes para cada enfermeiro. Em outras UTIs e em outros hospitais, principalmente nos bairros mais distantes, essa proporção é ainda maior. Tenho o privilégio de ter apenas três pacientes em alguns dias.

Esses dias me quebram.

Enfermeiros de UTI são treinados para ser precisos: medicamos, medimos, sedamos, paralisamos, entubamos. Lavamos seu corpo, vestimos você, alimentamos você e o deixamos confortável. Entramos naquela sala mais do que qualquer um. As pessoas me enalteceram como um herói, um super-herói para alguns, até um anjo - que meus pacientes tem sorte de ter a mim. Na maioria dos dias, me sinto longe disso. Agora, mais do que nunca, tenho sorte se tiver tempo de colocar pomada nos seus lábios rachados enquanto você deita em coma, momentos antes de fazer uma chamada de vídeo para sua família e eles verem você pela primeira vez desde que saiu para ir ao hospital, o tubo de respiração agora em sua boca, o de alimentação no nariz, uma leve baba e talvez um pouco de sangue aqui e ali que eu simplesmente não consegui esconder. E quem sou eu para roubar esse momento sagrado de você e de sua família? Quem sou eu para participar da santidade dessa reunião final? Parece um pecado. Fico envergonhado.

Mas permaneço ali, mesmo assim, tomado de vergonha e desprovido de energia, porque sou o único elo que você tem com sua família neste momento.

Às vezes, fico tão ocupado que os pacientes ficam deitados em suas próprias fezes por mais tempo do que eu gostaria de admitir. Como você encontra tempo para limpar seu paciente quando o batimento cardíaco de outro paciente chega a 0 no quarto ao lado? Mesmo quando saio do hospital, não consigo escapar dessa praga. O coronavírus me segue até em casa literal e metaforicamente. Está nas solas dos meus sapatos, nas minhas roupas enquanto as tiro na porta e nas minhas mãos enquanto as esfrego até ficarem vermelhas e em carne viva para me livrar dos sentimentos de sujeira e putrefação. Está nas sirenes que ouço do lado de fora, me perguntando se essa é a próxima vítima desse vírus, no alerta da mensagem de um colega de trabalho me informando que o pai de nosso colega acabou de morrer, e está nos alarmes de respiradores que disparam em minha mente até quando meu apartamento está num silêncio desolador.

Até agora, nunca tinha conhecido o sofrimento de me isolar sozinho; o quanto o som do silêncio poderia ser ensurdecedor.

Nos meus dias de folga, passo horas lendo artigos, novos estudos divulgados sobre os efeitos colaterais desse medicamento adaptado, benefícios desse novo estudo; o excesso de informações é interminável e avassalador. No entanto, todos os dias entro no trabalho sentindo que ainda não conheço o suficiente sobre essa doença e, todos os dias, saio do trabalho sentindo que falhei, como se pudesse ter feito muito mais. Nunca parece suficiente. Sinto que não estou nem perto de suficiente.

É por isso que digo às pessoas para não me chamarem de herói. Para mim, soa como mentira. Eu sou uma desgraça.

Eu visto a culpa como um cadáver veste uma mortalha. Eu corro para cima e para baixo durante doze horas por dia, às vezes mais, se tiver sido um turno particularmente agitado. Hoje em dia, considero-me sortudo se tiver tempo para comer, abençoado se tiver tempo para fazer xixi mais de uma vez por turno. Junto minhas bênçãos com minha sorte; já não sei mais pelo que agradecer - o fato de poder comer uma refeição completa sem pressa ou o fato de que não sou eu naquela cama da UTI no momento.

Quero que as pessoas saibam que isso é muito mais que difícil. Este não é o mundo da assistência de saúde que eu esperava entrar; nenhum de nós esperava. Eu estudei para salvar vidas. Eu me candidatei para cuidar dos doentes e moribundos e, sim, reconheço que isso tudo coloca minha saúde sob risco. Mas não confunda minha escolha de profissão com um senso diminuído de autoestima; eu não me candidatei para morrer. Quero que o país saiba que se eu acabar naquela cama de UTI, é porque não recebi traje de proteção ou EPI suficiente para me proteger. Quero que o país saiba que os Estados Unidos falharam com seu povo, principalmente aqueles considerados “essenciais” - nisso sim, acredito verdadeiramente. Afirmamos ser o melhor, o mais livre e o mais rico país do mundo - que ninguém se compara às nossas liberdades. Então, por que, quando meu turno termina, eu tiro a mesma máscara N-95 que usei por mais de 12 horas seguidas? Eu respirei ar viciado o dia inteiro em uma unidade cheia de pessoas que estão morrendo e, ao fim daquelas doze horas, eu me encolho e limpo meu pescoço desprotegido com um lencinho com alvejante, esperando que a capa amarela fina, permeável e fácil de rasgar que eu visto como "proteção" tenha feito o suficiente para impedir que o vírus penetrasse em minhas roupas e se instalasse sob minha pele.

Até que haja uma cura ou tratamento, as pessoas continuarão a morrer indiscriminadamente desta doença. Mesmo depois que medidas de isolamento social são tomadas, todos estão sempre em risco. Mesmo depois de um pico, ainda há um platô e uma jornada de declive, e as pessoas continuarão morrendo ao longo do caminho. Por muito, muito tempo, as UTIs ainda ficarão sobrecarregadas e os prontos-socorros lotados além da capacidade. Quero que as pessoas saibam que a assistência de saúde nos EUA está danificada. Nós não nos preparamos o suficiente; Nova York é um exemplo doloroso disso.

Eu acredito que essa pandemia esteja demonstrando de forma tão comovente e dolorosa as falhas do nosso sistema. Eu ainda sou tão jovem. Eu tenho sonhos e espero ter uma vida cheia pela frente. Quero ver meu sobrinho de quatro anos crescer. Eu quero me casar. Quero ter filhos. Então, peço que você não tenha pena de mim, que não me chame de herói. Não desejo ser transformado em mártir. Tudo o que peço é que, depois de tudo isso, você NUNCA esqueça como foi ficar preso em sua casa em quarentena. Peço que nunca se esqueça dos necrotérios em caminhões frigoríficos, da absurda falta de papel higiênico e da frenética disputa por máscaras. Quero que você se lembre do medo que tomou conta do seu corpo quando alguém tossiu ao seu lado ou quando você recebeu aquele telefonema de um ente querido seu, dizendo que estava com febre...

Bata palmas para mim e outros profissionais de saúde às sete horas, se isso fizer com que essa pandemia pareça mais suportável. Eu admito, seus aplausos nos ajudam a seguir em frente. Apenas saiba que aplausos e gritos não mudam o resultado. Este é o meu fervoroso apelo - que mudemos o que pudermos depois que tudo isso acabar. Isso jamais deveria acontecer de novo.


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KP Mendonza é enfermeiro da UTI de cirurgia e transplante do Hospital Mount Sinai, seu primeiro emprego na carreira. Formou-se na New York University em 2018. Rob Wallace é Ph.D. em biologia no CUNY Graduate Center e pós-doutorado na Universidade da Califórnia, Irvine. Mora em St. Paul, Minnesota, onde é professor visitante no Instituto de Estudos Globais da Universidade de Minnesota e balconista em uma lanchonete local. Também autor do importante e recente livro Big Farms Make Big Flu: Dispatches on Infectious Disease, Agribusiness, and the Nature of Science, qual está em processo de edição no Brasil e será lançado pelas nossas parceiras Editora Elefante e Igra Kniga.

Mari Cavalcante é tradutora e intérprete e professora. Criada em São Paulo, cultiva uma relação de amor e ódio com a cidade. É apaixonada por educação e política e atua também na produção cultural, além do campo de idiomas. Nessa pandemia, tem tido o privilégio de permanecer em casa com os gatos.

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Anexos * A primeira parte do livro de Rob Wallace, comentado em sua minibiografia acima, pode ser lida em português no site dos nossos não-autores anônimos Facção Fictícia. * Acerca da atual crise sanitária-econômica-social, a GLAC edições prepara um livro específico sobre o assunto, voltado ao contexto brasileiro, em que os leitores poderão conhecer as epidemias de nosso país e a produção da supressão social que elas exerceram. Mármore e Barbárie: história da experiência das epidemias no Brasil de Cláudio Medeiros, carioca da Vila da Penha e professor de Filosofia da UFF, pode ser introduzido com a leitura da trilogia "Quarentene-se", que o autor e Victor Galdino publicaram no Outras Palavras. Aguarde!

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