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O GÊNERO EM QUARENTENA - abigail Campos Leal


muita coisa já vem sendo pensada y dita sobre o coronavírus (covid-19). mas de tudo que foi dito, o que mais me chamou atenção foi o seguinte: como o coronavírus e suas consequências políticas possibilitaram uma atmosfera onde o capitalismo foi obrigado, por tensionamentos y conflitos internos e externos, a desacelerar seu ritmo, diminuir a intensidade de seus fluxos, enclausurar seus espaços, bloquear suas fronteiras, acionar políticas de redistribuição de renda, algo que era impensável até então; ainda que ele também tenha mantido ou aumentado sua violenta velocidade em outros domínios da vida, y ainda também que essas medidas tenham um caráter ambivalente, não sendo necessariamente subversivas ou disruptivas. o capitalismo entrou em quarentena. em partes. y com todas as suas contradições.


mas não foi somente na dimensão sócio-econômica que esse processo se deu. o gênero também está sob quarentena. e alguns avanços também se experimentam aí. tenho observado que muitas pessoas trans veem diminuindo a intensidade das suas práticas de "montação" de gênero: aumento do intervalo com que se faz o xuxu, com que se depila o corpo; o uso de base e maquiagens não tem sido indispensável; o intervalo da hormonização aumentou; transmasculinos diminuíram o uso do binder (1). não nos enganemos, essas práticas de deserção de gênero já existiam antes, a diferença é que agora elas estão se disseminando de uma forma mais generalizada, numa outra escala y tomando novos contornos.


ainda que vários desses processos sejam uma resposta à crescente precarização das condições de vida básicas da população trans em função dos desdobramentos sócio-econômicos do coronavírus y da quarentena, eles também veem ganhando uma dimensão afirmativa. várias travestis têm reivindicado que "fazer o xuxu" não precisa ser obrigatório ou que não precisa ocupar a centralidade que tem nas suas performatividades de gênero; boycetas tem afirmado que o binder não precisa ser um fator determinante na construção das suas masculinidades. E ainda que uma pele de boneca y um tórax mais retilínio sejam elementos de uma performatividade trans que possui, sim, uma dimensão subversiva, é inegável que essas práticas que vem colocando o binarismo de gênero em quarentena estão abrindo novas possibilidades de vida y operando uma transformação revolucionária nas estruturas do próprio binarismo de gênero. essas transformações não são pouca merda! elas abrem zonas de transformações nas existências trans, possibilitam outras formas de vida, outras formas de tornar a vida habitável. elas a f a s t a m, exorcizam, dentro de certos limites, os fantasmas da morte (depressão, pânico, suicídio, assassinato...), da morte como uma política em curso do terrorismo cisgênero. isso não é pouca merda!



e se o desafio na economia é sobreviver ao coronavírus e ainda manter a diminuição da máquina de exploração capitalista, no gênero também precisamos sobreviver ao coronavírus e ainda sermos capazes estender no tempo e no espaço essa zona que as pessoas trans (mas não só) tem criado, onde o gênero está cercado, sitiado, em quarentena. queremos que o ar siga sem a sua poluição acinzentante, mas também queremos continuar vendo estrelas no rosto babado de uma travesti de xuxu; queremos que pessoas pobres continuem a ter acesso a renda básica, mas queremos também que não-binárias de pernas peludas possam ter prosperidade econômica; queremos ver rios voltando a ser povoados por peixes y pela vida animal, mas queremos também ver a calmaria ecológica que uma cachoeira traz nos peitos desacuendados de um boyceta.


os perigos da nossa época fazem com que nos tornemos mais alertas y práticos. devemos urgentemente pensar em respostas concretas para a questão: como seguimos mantendo as nossas práticas de gênero subversivas que criamos y disseminamos durante a quarentena, quando a quarentena acabar? como seguimos deixando o gênero em quarentena, sitiando-o, no pós-quarentena? ainda que outras perguntas nos assombrem, de modo que também precisamos maquinar uma nova sensibilidade que permita responder a elas sem sucumbir ao assombramento: a quarentena acabará um dia? Talvez nunca mais retornemos à normalidade (econômica, social, afetiva, subjetiva, de gênero, racial...). por um lado, isso é bom, mas precisaremos tornar esse novo mundo de exceção habitável!

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Notas

1 . Binder é qualquer peça de roupa ou de tecido que possa ser utilizada para alterar a aparência dos seios.


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abigail Campos Leal atua entre os limites da filosofia e poesia. é mestre em Filosofia pela UFRJ e doutoranda em Filosofia pela PUC-SP. compõe a organização do Slam Marginália. ativista literária e palavrista, publica textos autorais e traduções em formatos de fanzine. subproletária da cultura, também atua em produção cultural e curadoria. Pela GLAC edições participa da coletânea Império e Anonimato: materiais preliminares às insurreições, e atualmente está preparando o livro "ex/orbitâncias: guerra social, comunitarismo e deserção de gênero no Brasil", a ser publicado em 2020.

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