CONTEÚDO 

NOTAS SOBRE UM REGIME DE VISIBILIDADE PRECÁRIA - Marcela Lins e Guilherme Benzaquen


Diante a situação político-biológica que atravessamos, surgem novos agenciamentos para as produções e subjetividades, dificultando a possibilidade de gerar desvios em um cenário que nos empurra para a escassez. O seguinte texto traz como proposta de reflexão o lugar da produção artística em uma conjuntura que nos força a nos tornarmos produtos de nós mesmos, ao mesmo tempo que cria uma opacidade na produção ao direcionar o fazer às demandas e assuntos delineados por um agente financeiro. Segue abaixo.


Imagem: Chris Burden, frame de Full Financial Disclosure, 1977. É o quarto da série de comerciais televisivos produzidos pelo artista. Foi exibido em diferentes canais de Los Angeles durante um mês. Disponível no youtube.


Há algumas semanas uma amiga riu e compartilhou o tweet da conta “frango triste” que lembrava o pesadelo “onde todos os artistas brasileiros estão fadados a tentar sobreviver através de editais cuja temática é, para sempre, o isolamento social”. O riso teve um efeito de alívio cômico em meio ao seu áspero cotidiano de tentativas de captação de recursos destinados ao pagamento das contas caseiras. Após o riso, ela lembrou também que há muito que o pesadelo não acaba. Tornou-se diário olhar as listas de concursos, prêmios e editais; assim como a participação em vaquinhas, leilões e rifas destinados a ajudar algum artista necessitado.


Esse é um cenário familiar para grande parte dos artistas nacionais e que, em nossa interpretação, aponta para a sedimentação de um regime de visibilidade precária no campo artístico brasileiro. Esse regime está constituído por um contexto geral de precarização do trabalho que atinge de forma particular os artistas. É um processo que tem uma dupla manifestação: (1) a competitividade cada vez mais acirrada entre os profissionais da arte para estarem no espectro do visível e (2) a exploração ou negligência dos órgãos financiadores e do mercado. Algo que tem se exacerbado nos últimos anos e que ocorre evidentemente de modo diferencial, atingindo particularmente as minorias sociais. Percebemos, ainda, que o regime de visibilidade precária não é uma exclusividade do campo artístico e nem pode ser compreendido apenas imanentemente, pois há articulações em outros âmbitos do social que o condicionam e o agravam.

Imagem: Chris Burden, frame de Full Financial Disclosure, 1977


Entendemos um regime de visibilidade como as articulações que tornam possíveis a aparição do visível a partir de relações de poder. Partilhamos da perspectiva foucaultiana de que nem tudo é passível de ser visível e essa possibilidade é determinada historicamente. Assim, um regime de visibilidade é constituído socialmente e constitui o social. Estar aparente não é, portanto, uma questão relativa exclusivamente à publicidade e popularidade, mas está relacionado com a determinação de lugares apropriados (visíveis) a determinados sujeitos, como enfatiza Rancière. A determinação de um lugar perpassa a constituição das subjetividades e condiciona as formas como cada um pode se relacionar com os outros.


Um regime de visibilidade precária é, portanto, caracterizado pela distribuição desigual dos lugares de aparição. Nele, há a designação de posições de subalternidade a determinados sujeitos. Porém, nem mesmo essa posição é garantida, ou seja, ao subalterno, a visibilidade só pode ser precária e, ainda assim, ele tem que disputá-la. Em tal regime precário, a visibilidade é uma questão de sobrevivência, pois muitos são privados da participação do comum.

Imagem: Chris Burden, frame de Full Financial Disclosure, 1977


Em relação ao campo da arte isso se traduz de forma específica. Acreditamos que os artistas, enquanto uma categoria profissional, são sujeitos destinados a uma visibilidade precária no Brasil contemporâneo. Evidentemente não estamos pensando nos artistas consolidados nas dinâmicas do mercado porque nos parecem exceções ao padrão do ofício – porém já se sabe que mesmo alguns deles não estão imunes a esse regime. Referimo-nos a uma precariedade que pode ser ilustrada por uma série de processos: a miríade de editais emergenciais mal (ou nunca) remunerados e, ainda assim, com concorrências exorbitantes; a transformação dos artistas em empreendedores de si, que precisam gerir eficientemente suas redes sociais, apoiados em conhecimentos do marketing digital; e os orçamentos destinados à área cada vez mais escassos, que acarretam a ausência e o desmonte de políticas públicas efetivas para a categoria.


A produção de precariedade tem se acentuado em anos recentes, sobretudo em um contexto bolsonarista de eleição da arte como inimiga pública. Percebe-se isso ao atentarmos para os discursos veiculados pelo governo federal e seus cúmplices e, também, na decisão por uma política de censura e do não-agir. A cada ano o orçamento e o planejamento estatal é definido de maneira a acabar com as possibilidades de financiamento minimamente decentes das atividades artísticas. Isso não é exclusividade do governo federal pois, nos âmbitos municipais e estaduais, o cenário muitas vezes não é melhor, o que força os artistas a terem que, cada vez mais, recorrer à inserção no mercado de arte – marcado por suas conhecidas vicissitudes elitistas e por suas recorrentes tentativas de atenuação e cooptação de discursos dissidentes. O mercado de arte é um dos atores principais na atribuição dos lugares visíveis, porém é constituído pela escassez e, nele, só cabem poucas mercadorias.

Imagem: Chris Burden, frame de Full Financial Disclosure, 1977


Diante de tal dramaturgia da precariedade, não cabe aqui direcionar a crítica aos gestores que estão conseguindo desenvolver projetos em tempos de pandemia mesmo com orçamentos irrisórios. Tampouco cabe culpar os artistas que têm recorrido a editais emergenciais exploratórios. A crítica não se direciona a esses sujeitos, pois acreditamos que, de um lado, há disputas pela viabilização da criação artística e, do outro, estratégias de sobrevivência legítimas. Desejamos, porém, enfatizar que tal regime de visibilidade precária é um processo social que atinge a todos que dele participam, independente das boas intenções.


Essa é uma dinâmica que tem ocasionado transformações significativas nos trabalhos de arte, pois muitos necessitam se adaptar ao contexto para sobreviver – lembremos das inúmeras convocatórias cujo tema é “isolamento social”. Porém, ainda mais grave são as

transformações subjetivas nos artistas que, gradativamente, adoecem frente a um estreito horizonte de oportunidades. Um processo que atinge preferencialmente e de maneira mais acentuada os que ocupam posições sociais subalternas de raça, gênero e classe. Como sempre, somos todos precários, mas alguns são mais precários que outros.


Diante desse cenário, há práticas que apontam para uma resistência. Essas são construídas em uma autonomia relativa ao mercado e ao Estado, buscando fortalecer espaços e lógicas contra-hegemônicas. Tem sido criada uma arte como prática de articulação que anuncia a construção de outros regimes de visibilidade mais igualitários. Percebemos isso particularmente nos coletivos artísticos, constituídos a partir de posições de subalternidade e na construção de redes e alianças que visam minorar as precariedades instituídas. Com eles há muito a aprender e a construir.

Imagem: Chris Burden, frame de Full Financial Disclosure, 1977


Fazer arte sempre teve algo de insistência. No Brasil de hoje, muito mais. A questão que se abre é a transformação da insistência na resistência. A resistência geralmente depende de certa insistência no antagonismo, porém nem toda insistência é antagônica, daí vale perguntar: em que insistimos? Devemos seguir insistindo? Como transformar nossos atos insistentes em processos de resistência?


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Marcela Lins e Guilherme Benzaquen desenvolvem trabalhos artísticos e de pesquisa conjuntamente desde 2017. Já participaram de exposições individuais e coletivas na Fundação Joaquim Nabuco, no Museu Murillo La Greca, no Festival de Inverno de Garanhuns e no Itaú Cultural. Suas experimentações artísticas se centram nas tensões entre arte e crítica do existente, com trabalhos relacionados à cidade, memória, invenção e política.


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Para ler com o corpo

Nesta série de textos publicados no blog-revista da editora, se prescreve aquelas críticas reflexivas que necessitam primeiro da experiência de um corpo em movimento para que se possa assim ler a contingência de revolta das ruas. Como no lema da GLAC, "Para ler com o corpo" não é apenas uma frase de efeito, mas um modo de ver e tornar o mundo um laboratório político do cotidiano.

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