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GRITO DA MÃE - Denise Algures

Atualizado: Mai 11


Legenda: período gestacional 2017


Hoje, para o dia das mães, publicamos o curto diário crítico que a outra editora dessa casa editorial escreveu em apenas dois dias de sua quarentena. Tendo em vista que, ao contrário de todos os homens que já publicamos aqui, entre o dia 12 de abril e 10 de maio, a autora, também companheira do editor da casa, produziu um relato doloroso em pouquíssimo espaço de tempo, que deflagra não apenas os motivos da editora existir mas também sob quais circunstâncias ela se funda no momento, desejamos com este ato não apenas esclarecer as opressões imunes de qualquer ambiente de produção capitalista, mas também torná-las transparentes no espaço interno de nossa própria produção. Qual as causas de Denise não escrever todos os dias contra o patriarcado, a heterocisnormatividade e a maternidade compulsória? Será possível engolir os fatos dessa pergunta retórica com um leitura do soco abaixo.


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12 de abril 4:39 e 10 de maio 15:00


Começo agora a lidar com a primeira grande crise entre escolher escrever ou dormir. Sim, porque acordar agora acarretaria em cansaço diurno, mal humor e talvez pouca paciência durante as tarefas rotineiras decorrentes da diária de trabalho doméstico e “cuidado parental”. Diante tantas urgências em que outro tempo eu poderia escrever ou pensar em silêncio? O que me parece mais importante do que aumentar as políticas de cuidado e solidariedade num momento em que as pessoas estão morrendo? Em que momento eu seria capaz de compreender que também preciso ser cuidada?


Não sou mãe solo, tão pouco cuido exclusivamente da casa e da minha filha, desde muito cedo optei por ter uma vida distanciada da vida doméstica e que me conferisse autonomia financeira, realização pessoal e profissional e obviamente os dias que antecederam a quarentena me traziam as incertezas, o medo e a insegurança de qualquer ser vivente no sistema capitalista. Como eu seria capaz de fazer acordos igualitários partindo da premissa de que não sou igual ao meu companheiro? Certa vez perguntei a ele, quantas mulheres trabalham pra que você faça tudo no seu tempo? Até hoje duvido que ele tenha entendido a pergunta.


Legenda: meu teste positivo - Fev 2017


Talvez tenhamos aprendido a gritar com nossos chefes, empurrar tarados no transporte público, a dizer a um homem qualquer que não nos interrompa ou não interrompa uma parceira. Mas eu pergunto, como negociar sobre a subjetividade, o desejo e individualidade feminina quando tratamos de políticas de cuidado dentro do micro ambiente em que estamos inseridas? Dentro dos nossos lares? Mesmo antes da quarentena quem lavava banheiros? Quem passava a vassoura, quem carregava livros? Quem supervalorizava o trabalho intelectual? Quem ocupava o espaço público? Quem se importava se o fogão estava sujo? Se a filha tinha roupas limpas? Se a privada estava entupida? Se a fralda estava acabando, ou até mesmo o açúcar?


Olhar pra tudo isso me fez chorar um tanto nas primeiras semanas de quarentena, talvez por enxergar a treta que seriam as semanas seguintes, a dificuldade de comunicação e entendimento da vida a dois e as dificuldades da mulher que não se identifica com a manutenção da divisão sexual do trabalho, mas involuntariamente mantém a estrutura que abomina. Veja bem, não que eu não tenha tentado, acontece que quando o meu corpo em negação não realiza o que falsamente é designado, os conflitos gerados são tão desgastantes que parece mais simples fazê-lo.


Explico, a primeira proposta sugerida pelo meu companheiro para dividir o cuidado tanto da casa quanto da nossa filha foi fechar a editora e desistir dos seus projetos. Num primeiro momento podemos entender como uma atitude altruísta. Ora, muitas mulheres desistem por causa de suas crias e suas demandas, se o cuidado é parental (exercido pelos parentes das criança: mãe e pai) essa possibilidade é razoável certo? Errado!!! Muito errado!! Estaria ele sugerindo que só poderíamos dividir igualitariamente o cuidado e organização da casa e filha se ele não trabalhasse?!


Não olhar para a vida de uma maneira abrangente, é naturalizar a incapacidade de promover outras formas de viver em comunidade. As mulheres não nascem mães, não existe nenhuma habilidade especial (fora o gerar e parir) que faça de mim um ser sobrenatural que da conta de todas as demandas da casa, do companheiro, da filha, dos familiares, do trabalho. Pensar como conciliar a vida e as coisas que nela coexistem não é tarefa exclusivamente nossa! Por que homens inteligentes e sensíveis não são capazes de acessar esse entendimento ou pelo menos ouvir quando falamos sobre?


Diante de uma imersão ao ambiente privado e doméstico como estavam minhas amigas mães? Como estava a minha mãe? Como se apresentavam as dinâmicas nesses lares de companheiros esquerdistas, marxistas, autonomistas, anárquicos. O que propunham seus parceiros revolucionários da vida pública? Que a companheira se equilibrasse entre trabalho remoto ou desemprego, somado à trabalho doméstico não remunerado. Não foi grande a minha surpresa em saber que elas foram lançadas aos fogões, ao cuidado exclusivo dos filhos e manutenção do trabalho e produção masculinas.


Nunca desejei ser mãe, odiei estar grávida e demorei muito a me vincular ao meu processo gestacional. Era mal vista pelos homens a minha volta, era mal vista pelo meu companheiro. Meu corpo lhe parecia nada desejável, eu sentia dores. E o esperado era padecer no paraíso, me santificar diante da teta derramada e do corpo habitado e dolorido.


Como eu, uma militante pela libertação das mulheres aceitei essa essa circunstância?

Quando as mulheres negam a maternidade por entender que tudo a respeito dela é compulsória, elas negam que assim como ser mulher, o ser mãe também foi designado pelo patriarcado. Nenhuma mulher DEVE ser mãe se assim não desejar. Isso não implica em dizer que outro “maternar" não seja possível e que as mulheres mães não possam mudar sua realidade. A única maneira de combater a exploração do trabalho reprodutivo é não reproduzir? Ou poderíamos nós, devolver à semente a responsabilidade que lhes compete?

Quem além de nós mesmas poderia validar nossa subjetividade, nossa potencialidade, a autonomia sobre nossos corpos, nossos partos, nossa maneira de alimentar e criar, nossos desejos, nosso prazer e bem estar?


Esses dias eu grite e gritei muito. Agora desejo que os gritos ecoem no centro de lares exaustivos, questionando a ordem simbólica e social marcada pela dominação do sujeito masculino. Que possamos criar um quadro de referências capaz de garantir a necessária auto representação simbólica das mulheres enquanto sujeitos, para que então possamos conhecer sua imagem e então encontrar-nos e reconhecer-nos fora da lógica patriarcal, heterossexual e machista.

Que todo esse processo nos devolva a originalidade perdida durante a internalização das necessidades masculinas. Que nós, as Maria s, Lucila s, Cecília s, Vanessa s, Sofia s, Bruna s, Nathalia s, Cilene s, Fernanda s, Olivia s, Carol s, Elaine s, Cristiane s, desfrutemos uma vida de RISOS!


AMO MINHA FILHA, AMO SER MÃE E A CADA DIA ODEIO MAIS O PATRIARCADO!


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Denise Algures é diretora de arte, mãe, bruxa e colaboradora da GLAC edições.


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