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A CASA COMO LABORATÓRIO DO APRENDER - Gustavo Torrezan

Atualizado: Ago 6


Legenda: Ana Takenaka - “Vôos n’água #5”, 2020 - Foto: Registro cedido pela artista


Desde o início da pandemia provocada pelo COVID-19, e em meio a tudo aquilo que nos coloca ora mais para um lado, ora mais para outro, nesse sucessivo processo de condução de si pelo outro, venho observando em mim, e em muitos que me cercam, uma preocupação enorme por dar conta, especialmente, de uma continuidade daquilo que estava posto, produzindo um mínimo de perda desse “tônus”, e da projeção do que será após “isso tudo passar”. Em meio a esse antes e depois está imbricado um tipo de hoje, profundamente relacionado ao modo como lidamos e combatemos a institucionalização, em especial, de nossas vidas.


Desejo pensar um pouco sobre essa institucionalização que está tão impregnada em mim, e talvez em nós. Pensar numa dimensão dela que é a dimensão da aprendizagem, cuja faceta institucional se dá, simplificadamente, pela lógica burocrática do ensino. Busco neste texto externalizar "no mundo", de alguma forma, problemas que quero resolver comigo mesmo, acreditando que o diálogo é importante por fazer, pouco a pouco, movimentar e deslocar as coisas de lugar, me fazendo diferente para melhor. Assim, esse é um desejo de dialogar com educadores e pais preocupados com os conteúdos escolares, preocupados com aquilo que seus filhos, ou seus estudantes, estão perdendo. Fazer um convite para pensarmos possíveis potências para as circunstâncias que estamos vivenciando. Para juntos imaginarmos outros modos de aprender.


Pensar aprendizagem é, nessa oportunidade, pensar o modo como nos colocamos no mundo, e como nos implicamos nele: seja na conformação de uma subalternidade tipificada no modo como se imagina-deseja-projeta-formata um aluno em sala de aula; na batalha, muitas vezes silenciosa; ou no erguer a voz e realizar práticas contra essa subalternidade educacional. Pensar a aprendizagem é pensar o modo como inventamos, coletamos e colecionamos, compondo e articulando referências que nos fazem elaborar de modo diferente. E aqui, trago a diferença como o processo incessante de reconhecimento de movimento (isso não diz respeito, necessariamente, ao movimento físico, mas à percepção desse já não são como antes das coisas; esse processo consciente de mudança que nos faz críticos diante delas).


Essa sensação de não ser como antes fica visível, talvez, num macro-contexto, mas nem sempre se apresenta com clareza no micro. Proponho investigarmos, juntos, essa percepção do não ser como antes a partir da dimensão micro-contextual de nossas habitações, pensando esse lugar da intimidade como um espaço de aprendizagem.

A casa, independente de sua configuração, tamanho ou condições (eu mesmo já experimentei muitas variações de diferentes tipos, confortos e arranjos), possui essa dimensão comum que é o da possibilidade de aprendizado. Começa naquela expressão germinal de que ela “é aquilo que a gente faz como casa” . E isso pode ser implicado num ponto de vista laboratorial.


Os diferentes graus de práticas laboratoriais da casa estão diretamente ligados e relacionados aos modos de como se quer condicionar a sociedade. Não é à toa que, no Brasil, em determinada crise sanitária anterior a essa, uma das medidas tomadas pelo governo foi a aniquilação daquilo que atualmente se convenciona chamar de “cortiços”, habitações comuns compartilhadas onde o dissenso e a diversidade habitava, do centro urbanizado. Não ignoro a precariedade que envolve ideia de cortiço, mas aponto que as aniquilações dos cortiços se deram, historicamente, como uma operação política de higienismo que buscava deslocar corpos de determinados lugares. Melhor dizendo: quando se buscava aniquilar os cortiços se buscava, junto a essa prática, operar uma tecnologia racista e social, e não uma melhora na condição de vida daqueles que ali viviam.

Não à toa que, atualmente, se vê cada vez mais uma configuração de casa voltada para uma ou duas pessoas, ou para esse imaginário da “família tradicional brasileira”. Para tipos de famílias formatadas a partir de pressupostos institucionais - do Estado, das Igrejas - do que é ser família. Também não é à toa que existam edifícios, por exemplo, sendo vendidos “para a realização do sonho da casa própria” com o tamanho de 24m², viáveis por meio de prestações a perder de vista, que prendem o sujeito a uma condição-prestação-dívida eterna. Esses exemplos, ainda que rasteiros e pouco explorados, nos mostram como a casa é uma dimensão política de exercício do governo, de uma política "Higienópolis", diretamente ligada a condicionar tipos de corpos, de viver e, por consequência, de aprender.


Legenda: Luis Caminitzer - The photograph, 1981 - Foto: WikiArt


Precisamos problematizar a monocultura do aprender tal qual está posto a nós, apresentada como único meio. Por isso faço tamanha aposta na casa, já que é nela que conseguimos, de algum modo, experimentar a diferença, especialmente do e no aprender, nesse agora vivencial em meio às escolas e outras instituições de ensino fechadas. Um aprender que pode passar desde a repactuação com os pais para suportar um convívio que antes não se tinha, ou para então provocar o rompimento de barreiras-comportas, machistas, que represam a determinação de tipologias dos trabalhos domésticos, como por exemplo o limpar, o cozinhar e outros afazeres. Até mesmo quando estes sejam executados como função, em um trabalho externo, no emprego, como condição de vida, há sempre, em alguma das dimensões da casa e na sua manutenção, algo que habita a ótica do experimental e do aprender. Por isso, talvez, um dos lugares mais divertidos para isso seja a cozinha. Aliás, a cozinha merece ser, por excelência, um espaço laboratorial no qual experimentamos a voz e a colocamos em comensalidade para travarmos combates na mesa, a partir de assuntos como o antirracismo, a anti-homofobia, o privilégio branco, e a importância das políticas de reparação social e outros aprendizados tão importantes ao viver, como fazer a comida e saber se alimentar bem. É na prática laboratorial da cozinha que se valoriza uma dimensão intuitiva, que passa por uma certa extensão alquímica relativa ao processo de cozinhar e, de preferência, no cozinhar algo novo feito sem receita prévia, para inventar novas notas de uma busca de outras escutas, olfatos, paladares, organizações e fazeres.


É na casa que a gente experimenta escrever como se quer, inventando uma nova língua ou um texto para si que convoca certo tipo de leitor como companhia. A chance de, talvez, cantar como se quer, e onde se utiliza as mãos para outras feituras que por vezes perpetuam saberes ancestrais, como tecer os nós do crochê ou o cuidar de uma planta. É também habitando a casa numa metrópole¹ que podemos germinar sementes, e ver o tempo das plantas e suas pedagogias que nos convocam a outros imediatismos e perspectivismos. É na casa que construímos ou consolidamos alguma dimensão mística composta por diferentes ingredientes de crenças projetivas, desejantes, de um outro (mundo, etc.). Também é na casa que sentimos o cheiro da singularidade, e despimos nossos desejos reprimidos. Ainda é na casa que exercitamos as primeiras e tão importantes técnicas de esquiva que são maquinadas por toda a vida, e nela experimentamos as primeiras implicações da coletividade, seja das festas ou seja das guerras, reverenciando tudo aquilo que nos atravessa como experiência do saber, pois é nela que agenciamos e potencializamos outros tipos de conhecer.


E para aprender no ambiente da casa é preciso levar em consideração aquela que é uma de suas maiores práticas, levar mesmo em conta a importância de ciências paralelas como a gambiarra. Ainda que para muitos a gambiarra seja um condição de precariedade, proponho aqui pensá-la sob um viés específico, pois é com essa e outros tipos de ciências menores que conseguimos inventar, adaptar e engenhar toda e qualquer coisa do ponto de vista experimental e entender, por exemplo, que tecnologia não é só o que é eletrônico, elétrico, mas sim o modo como constituímos aquilo que chamamos, genericamente, de cultura.


Legenda: Registro na ocupação Capão Redondo do MTST, feito por Diogo Geo - Foto: cedida por Gustavo Torrezan


É por isso que refaço a aposta nesse tipo de presença doméstica, e na dimensão inventiva dela como possibilidade de produção de vida – uma aposta em um certo jeito diagramático de composição em arranjos vernaculares, que se dão por associações, e por um pensar de outras maneiras –, como regeneração do combate extra-institucional que pode nos conduzir à possibilidade de abertura para uma outra imaginação política de mundo, diretamente relacionada a darmos continuidades a esses mundos que ainda habitamos, porém de outro modo. Pois, o que se aprende em significativa parte das instituições educativas é, em grande medida, o aniquilamento de mundos em favor de uma propensa unidade que possui um certo “q” fascistóide.


Para isso é importante habitar e entender a dimensão experimental da não resposta pronta e imediata, um processo contrário ao exigido pelo neoliberalismo: respostas prontas, produtos prontos para serem consumidos freneticamente e sem muito pensar. Não é por acaso que as instituições costumam dizer “sinta-se em casa” quando querem de você alguma pactuação, seja a de comprar-consumir algo freneticamente e “com prazer”, ou que você se torne algo consumível por ela.


Então, porque não disputar a casa, esse lugar da intimidade, para experimentação laboratorial? De maneira que, o que desejo sustentar aqui, é a possibilidade na casa da experimentação, de experimentar o experimental, amparando-o como prática de aprendizagem por meio de uma certa “impureza” do ponto de vista político e de vida, no qual não existem disciplinas curriculares, ou metodologias corretas do fazer.

Pensar a casa como laboratório é pensar sobre as políticas de aprendizagem e sobre a produção de autonomia enquanto possibilidade de desescolarização da vida, como diria Ivan Illich ². Desescolarizar a vida não significa aniquilar instituições como a escola, interpretação erroneamente dada ao pensador por perversores, mas inventar e correlacionar outras formas de aprender, que diretamente significam outras formas de estar, constituir e inventar mundos.


Legenda: Ana Takenaka - “Vôos n’água #3”, 2020 - Foto: Registro cedido pela artista


Quando se tenta agenciar as telas como novo lugar determinante do aprendizado, entender a casa como laboratório, e esse experimental como potência do aprender, cria-se uma dobra. Em outras palavras, fazemos o/um convite para tomar para si o protagonismo da produção da vida e do viver, da vida como prática do aprendizado, já que é nela onde constituímos parte significativa de nossa cosmopolítica. Tal condição de protagonismo do aprendizado e das lutas passa, por vezes, por valorizar algo comum a todos nós (como valorizar o SUS), mas por vezes por negar o que querem que seja servido como comum (a saída momentânea à rua, ou a ideia propagada do tal “novo normal”), quando a necropolítica se instaura por determinados tipos de governabilidade.


Assim, a casa como lugar de aprendizado autonomista é o lugar para o exercício experimental de uma dimensão laboratorial onde se inicia a própria expansão da noção de casa, para além daquilo que a constitui como um aglomerado de quatro paredes e um teto, para colocar, por exemplo, as ruas (nos múltiplos sentidos de rua) como extensão das existências doméstica, e lugar onde podemos habitar enquanto sujeitos criadores de nossos próprios destinos.



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Gustavo Torrezan é artista, pesquisador, educador. Graduado em Artes Plásticas, mestre em Educação e doutor em Poéticas Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisador no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Em sua prática artística, volta-se a refletir sobre as estruturas de poder que configuram historicamente as organizações coletivas, bem como suas constituições culturais e identitárias. Realiza trabalhos híbridos nas quais se vale de diferentes materiais e disciplinas para discutir sobre relações de domínio, a partir das quais se modulam os processos de subjetivação da sociedade. Assim, tem interessado em observar o papel do Estado, de seus regimes administrativos, de suas autoridades e instituições. Nesse processo, evoca os campos da sociologia e da geopolítica em suas pesquisas conceituais, fazendo, muitas vezes, uso de símbolos oficiais da nação para tencionar suas conotações. Para além da experimentação com a síntese formal e com procedimentos de revisão simbólica, propõe também o debate sobre os mecanismos de poder em dispositivos do sistema das artes, aproximando-se das questões de arquivo, memória, espaço e lugar. Por vezes, seus trabalhos insurgem de circunstâncias comunitárias específicas e aproxima-se dos processos sociais ligados a uma determinada localidade. Nesse sentido, as noções de colaboração e de dialogia também vêm sendo exercitadas em sua produção.

http://www.gustavotorrezan.com


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Nota da edição [1] Conselho Noturno: Um habitar mais forte que a metrópole, Glac Edições

[2] Pensador austríaco que, entre um de seus trabalhos mais famosos, está o de pensar processos autônomos de aprendizagem.


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Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com



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